Das drogas para o amor dos filhos

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 70% dos estudantes de 13 a15 anos já ingeriram alguma bebida alcoólica. A pesquisa revelou ainda que mais de 8% dos entrevistados já fizeram uso de drogas, como a maconha, a cocaína e lança-perfume. Foi justamente na adolescência que Alexandre Cordeiro Fernandes, 37 e João Paulo Davide, 32 anos provaram a droga. Os dois estiveram ‘no fundo do poço’, como eles mesmo descreveram, mas conseguiram superar. A força para mudar de vida veio da vontade de ser um pai de verdade, daqueles dão que orgulho aos filhos.

Eu já fui preso e há cada coisa que eu me levei. Mas a culpa é minha e de mais ninguém, declara Alexandre ao analisar sua vida enquanto dependente. Aos 16 anos, querendo chamar a atenção dos pais, ele entrou no mundo das drogas. Não demorou muito e a rotina da escola se tornou incompatível com a vida que levava. Com a fuga usual das responsabilidades, Alexandre acredita que não estava preparado para a gravidez da namorada e o casamento que veio a seguir.

O nascimento do filho, no entanto, o manteve afastado dos entorpecentes por quase 10 anos. Eu dizia que seria um pai diferente do que os meus foram, que daria atenção. Mas antes mesmo da droga, meu comportamento era uma droga. Nunca dei a atenção que meu filho merecia, lamenta. Com as discussões familiares e a certeza de Alexandre de que suas obrigações estavam plenamente satisfeitas por ele levar dinheiro para casa, a droga foi novamente o refúgio. 

Com o uso do crack, em pouco tempo ele estava vivendo nas ruas. Essa situação durou um ano e meio e as recordações não são muito boas. Até armei para ir preso porque quem vive nas ruas sente que a cadeia é um paraíso, relata ao afirmar que estava abaixo do nível de ser humano.

A decisão de parar também veio de uma situação com o filho. Cansado de passar fome, Alexandre foi pedir comida em um barzinho frequentado pela classe média/alta. Quando a gente entrava nesses lugares, até sermos expulsos pelo garçom a gente conseguia um pouco. Quando estava de saída, Alexandre encontrou com o filho que não via há mais de um ano. Ele tinha 13 anos na época e estava com a primeira namoradinha. Eu não sabia disso e não o vi chegar a essa fase, conta emocionado.

Com os olhos cheios de lágrimas, o filho fingiu que não conhecia o pai e a namorada, tentando entender o motivo do ‘mendigo’ estar encarando o rapaz ofereceu um salgado que estava na mesa. Eu aceitei e estava de saída quando escutei ela dizer que se tivesse um pai assim, morreria de vergonha. Aquele foi o fim. Meu filho não merecia isso e eu também não.

Alexandre resolveu então procurar o pai, que acreditava que ele já estava morto. Ele me disse que preferia saber que eu estava morto a ouvir minha voz. Porque isso significava que eu continuava me matando aos poucos. Segundo ele, os familiares não abandonam um dependente porque deixam de amar, mas sim por não suportar presenciar a destruição do outro sem poder fazer nada.

Retomada

Com a ajuda da família, Alexandre foi trazido para a Comunidade Terapêutica Redenção (CTR), em Campo Mourão. Lá o tratamento levou nove meses. Já na primeira visita o filho foi visitá-lo. Eu ainda estava atordoado e culpei a ele e a mãe pelo que eu me tornei. Foi quando ouvi do meu menino a melhor explicação para o que aconteceu. Ele me disse que eu nunca soube enfrentar os problemas, recorda.

Após o período como interno, foram outros três meses como estagiário na instituição e há um ano ele atua como monitor. A droga é para sempre. Mas eu aprendi a ser pai. Pai não é aquele que dá presente e sustenta o filho. Pai precisa estar junto desde o nascimento às primeiras continhas de escola.

Uma segunda chance para a família

Neste dia dos pais, Paulo André de 10 anos, já tem o presente preparado. Como o dinheiro está curto, o abraço especial dele e da irmã mais nova irá alegrar o domingo de João Paulo Davide, 32 anos. Seu início no mundo das drogas foi bem cedo. Aos 12 anos, levado pela curiosidade, ele cheirou cola. Desse primeiro contato até entorpecentes mais fortes como a maconha e a cocaína foi muito rápido. Por um tempo, ele conseguiu se manter longe do crack, mas como a maioria dos dependentes, não foi preciso ir muito para chegar a esse nível.

A primeira sensação, segundo os adictos, é sempre de prazer. Se isso não fosse verdade jamais a pessoa repetiria o uso. Mas essa sensação não volta e por isso logo muda para outra droga. Sempre em busca daquele primeiro momento de êxtase, conta. O problema, é que ficar totalmente longe das substâncias é uma tarefa quase impossível para o dependente químico. Esse é o motivo de haverem tantos dependentes químicos no uso, e um número tão baixo de dependentes recuperados. A gente perde os valores. Abre mão de tudo em função da droga, lembra com amargura.

Quando fazia quase 10 anos que estava usando drogas, João Paulo conheceu sua namorada. Casou e teve Paulo André. Na época, trabalhava e tinha um salário suficiente para sustentar a esposa e os filhos. Mas eu não pensava na família. Pensava apenas em mim. Parei com tudo e fiquei só na droga. Tive um AVC [Acidente Vascular Cerebral] e duas veias arrebentaram. Não tenho nenhuma sequela então só posso entender que Deus me deu uma segunda chance. Essa é também a visão do menino, que até os oito anos, tinha preocupações de adulto. É bom ter meu pai de volta. Antes não sabia se ele voltava para casa ou não.

Hoje João Paulo montou um abrigo para dependentes químicos e vive de doações. Só eu posso entender, pois passei por isso e sei o que é ficar no mundo das drogas e não quero que nenhuma família sofra isso, completa.

Solidariedade

A casa de refúgio O Nazareno, montada há alguns meses, ainda tem estrutura precária. Faltam beliches para aumentar o número de internos e materiais de construção para o término da cozinha. Quem quiser ajudar ou conhecer a proposta pode ligar no telefone: 9833-4735.