Piloto de aeronaves, empresário. A esposa, quinze anos mais jovem. Uma criança planejada. Cenário de propagando de margarina. Mas, os fatos levaram Jorge da Silva Pinto Filho a momentos turbulentos. Embora a profissão o levasse a viver nas alturas, foi com os pés bem plantados ao chão que ele teve que tomar a decisão mais difícil de sua vida.
Viajando constantemente, Jorge descobriu comportamentos moralmente reprováveis da esposa, para quem acredita em um casamento monogâmico, ainda mais em uma cidade pequena como Peabiru. Feita a separação e o pedido de divórcio, deu-se início uma batalha judicial para saber quem ficaria com a guarda da única filha do casal. A sentença da Justiça foi rápida: Jorge ganhou a guarda definitiva de Camila, com cinco anos na época.
Ele teve que diminuir o ritmo das viagens, embora na maioria delas, a sua pequena copilota ia junto. Lembro de uma viagem de Curitiba a Campo Mourão em que peguei um mal tempo e o avião tremia muito. Com uma mão eu segurava o manche do avião e com a outra eu impedia que a Camila caísse da poltrona, contou Jorge. Camila dormiu tranquilamente durante toda a viagem, deitada no assento atrás do pai piloto. A segurança de viajar com o pai impedia que ela acordasse assustada durante as tempestades. Quando acordada, Camila levava consigo um mapa aberto em cima das pernas para auxiliar o pai.
Se o ditado popular diz fala que instinto de mãe não falha, o de Jorge, pai, pode ser considerado a exceção da regra. Quando ainda casado, ele conta que algumas vezes Camila dormia entre o casal. Durante o sono, bastava que a temperatura da pele de Camila aumentasse, ele já acordava. Era certeiro, Camila estava com febre. A mãe continuava a dormir sem nada perceber, segundo o relato de Jorge. Ele conta que foi ele quem deu o primeiro banho na filha.
Após sete meses cuidando sozinho da filha, contando somente com o apoio de duas irmãs que moravam na mesma cidade, Jorge decidiu abrir mão da guarda para a ex-esposa, que batalhava para reverter a situação na Justiça. A Camila não entendia o que estava acontecendo. Eu tinha muita preocupação em como suprir o papel da mãe. Usei o bom senso de pai, justificou.
Foi uma responsabilidade muito grande ter que tomar esta decisão. Ela foi convidada a pertencer ao seio de nossa família [referindo-se ao período de gestação]. Outro momento que Jorge relata com carinho enquanto cuidou sozinho da filha, foi na festividade da escola para o Dia dos Pais. Ele diz que as crianças estavam com máscaras, sentadas, dentro da sala de aula. Cada pai que chegava tinha que ir até a porta e apontar quem era seu filho, apenas pelos olhinhos que estavam à mostra. Ele reconheceu Camila na primeira olhada.
A filha foi morar com a mãe em Campo Mourão. Mas Jorge a visitava todos os dias e ficava com ela nos finais de semana. Aos quinze anos, Camila resolver voltar a morar com o pai. Ele está hoje com 51 anos, ela com 21. Jorge conta que mora com a namorada, a filha e também é pai e avô do cachorro de Camila, da raça yorkshire.
Jorge se define como um pai austero, atencioso, companheiro e amoroso. Quanto a um conselho que daria a pais que se veem sozinhos cuidando de uma criança, ele fala com muita calma. Não existe nada impossível. Nós somos aquilo que fomos educados a ser. Quem não recebeu mais informações pode ter um pouco mais de dificuldade, quem recebeu, tira de letra. Hoje está até mais moderno isso, muitos pais quando se separam têm a guarda compartilhada, comenta.
Jorge acredita que a educação que recebeu do pai dele foi decisiva para que enfrentasse tudo com mais serenidade. Tive um paizão. Um exemplo de A a Z. E tudo que faço pela minha filha é pensando em ser um pai como ele foi para mim, conclui.
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