Dois corações, um Pai!

Os olhos lacrimejam e a fala engasga. Mas isso não impede o desejo de expressar a dor. As palavras são contundentes. A memória pulsa.  Rinaldo, O Gordo – apelido que faz questão de enfatizar – é treinador de futsal em Campo Mourão. Querido por pais e alunos, já estava acostumado a ser o paizão da molecada. Mas jamais imaginou que teria que ser também a mãe dos próprios filhos. Ele ficou viúvo há três anos.

A esposa passou três meses com tonturas e dores cabeça. Os médicos receitaram antidepressivos e remédios para labirintite. Em uma tarde, foi internada às pressas.  Dera início à contagem regressiva de doze dias na UTI, quando faleceu. Descobriu-se que tinha muitos tumores no cérebro. Em casa, dois filhos, Janine, na época, com 14 anos e Felipe, 10. Ela faleceu um dia depois do aniversário da filha.

Impossível entender o desespero e desafio de Rinaldo, sem antes relatar como era a presença da esposa na vida familiar. Eliane Alves da Silva tinha 23 anos quando se casou com Rinaldo, de 19. A juventude não foi nenhum obstáculo para que juntos tivessem os filhos, embora sempre tivessem a ajuda de uma prima de Eliane, a Josi, que foi morar com o casal desde o início. 

Eliane e Rinaldo construíram uma carreira voltada à educação. Ele, professor de educação física e treinador de futsal e ela, coordenadora pedagógica de uma escola na Vila Urupês. O casal viajava constantemente para levar os jovens atletas aos campeonatos de futsal. Eliane era quem cuidava de toda a logística. Autorização dos pais, remédios que cada criança tomava, alergias, alimentação específica, manias de cada um.

Pensei em desistir da profissão. Tudo que eu fazia lembrava ela. Ainda lembra, comenta Rinaldo. Ele relata que achou que não iria conseguir seguir em frente, cuidando dos filhos. Todos da família pediam conselhos a ela, nos negócios, nos relacionamentos. Católica praticante com diversas atividades na comunidade, Eliane pedia em suas orações que qualquer mal que pudesse acometer os seus familiares fosse canalizado para ela. Acho que isso a sobrecarregou, acredita o marido.

Foi muito difícil. Achei que eu não ia conseguir. São dois tipos de educação pedagógica diferentes. Ela era a mãe, educadora, a chefe. Eu, o pai que saía para trabalhar e manter a família, conta Rinaldo. Ele disse que nunca se preocupava, pois, ela como pedagoga, já cuidava dos filhos dos outros, então educar os nossos será fácil.

Nestes três anos sozinho com os filhos, Rinaldo que aponta a proximidade como a maior alegria. Hoje somos 100% ligados, afirma. Mas os momentos de dor continuam latentes e cada um apoia o outro, de formas bem peculiares. O filho dorme com ele. Não por algum medo, que seria facilmente compreensível neste caso. Ele sabe que quando vou para o quarto é porque quero chorar. Então ele corre para me fazer companhia e tentar impedir que eu desabe.

Rinaldo diz que é na tomada de decisões sobre os filhos que ele mais sente dificuldades. Janine é jogadora de xadrez e já galga medalhas. Ela passou na faculdade e Rinaldo está construindo uma casa para ela ter mais independência.  Felipe, agora com 13 anos, vai virar atleta profissional de futsal. Ele foi  convidado para morar em Porto Alegre para jogar no Internacional. A Josi é quem vai acompanhá-lo. É este tipo de decisão em que mais preciso da ajuda dela [da esposa], você me entende?, finaliza Rinaldo. 

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