Jerson, o professor de 349 afilhados

Jerson Antônio Wobeto é singular. Espiritualista, vive isolado em um casarão herdado do avô na área central de Barbosa Ferraz. Não possui família, está só. Aos 51 anos de idade, decidiu não se casar. Optou pela espiritualidade. E é feliz por isso. Deixa a casa apenas para lecionar. Ele é professor em escolas públicas da pequena cidade. Com o dom de benzer, vem cultivando amigos. Resultado disso está nos números. Segundo Wobeto, já são 349 afilhados, todos a partir de pedidos de pais. Mas o que o faz tão interessante e com características peculiares não é seu modo de vida. É a forma como pensa e age. Wobeto parece ter nascido para proclamar o bem.    

Sua história começou ainda na juventude. Por ser diferente, passou a ser querido na comunidade. Assim, na hora de batizar os filhos, muitas pessoas o procuravam para que fosse padrinho. Até hoje a cena é a mesma. Morando em um casarão, que mais parece uma fortaleza, tem gente que chega a pensar até que ele seja um bruxo. Afinal, vive entre muros altos e portões fechados o tempo todo. Dentro não se escuta um pio. E mora sozinho.

Em sua vida, Wobeto teve cinco irmãos. Todos morreram logo após o nascimento. Nasceram aleijados. Mal conseguiam respirar. O pouco tempo deles era um sofrimento imenso. Quando eu nasci falaram [os médicos] a meus pais que eu não teria um semestre de vida. A minha mãe sempre dizia que quando eu comecei a falar comecei a benzer. Mas eu não tinha a menor ideia do que se passava, comentou. Ele acredita que a quantidade de afilhados tem a ver com seus traços espirituais.

Hoje o professor diz que tem afilhados de mais de 70 anos que ainda o chamam de pai e até pedem benção. Segundo ele, são tantos que não se lembra do nome de todos. Tenho um amor de pai por eles. Se eu tivesse condições físicas e financeiras encheria este casarão. Cuidaria de todos. Esse é o meu desejo, revelou.

O professor acrescentou que parte do salário é para presentear os afilhados. E você vê o quanto sou feliz. Natal do ano passado eu ganhei 33 presentes. Qual pai será que ganhou isso tudo?! Eu ganho presentes praticamente todos os dias da minha vida. Wobeto se diz presenteado por Deus.

Segundo o professor, sua mãe dizia que ele chorava quando criança porque queria ser tio. Porém, seus irmãos eram todos mortos. Ganhei demais na minha vida. Nem mereço tudo que eu tenho. Deus deu essa coisa mais linda do mundo que é ter essa quantidade de afilhados, comentou.

Solidão

Há alguns meses, um aluno o perguntou se ele tinha mesmo um caixão de defunto em sua casa. Eu falei que não tinha por dois motivos: primeiro, tenho medo de defunto, e segundo, porque não preciso do caixão de defunto para benzer, falou. Na verdade o caixão ao qual o estudante se referia, era uma mala que o professor ganhou de um padre na cidade. O religioso teria participado da segunda guerra mundial, de onde trouxe o objeto.

O fato de manter o casarão sempre fechado, Wobeto diz que é porque quem trabalha a espiritualidade deve ficar afastado do mundo. Apesar de viver só no local após a morte de sua mãe, não tem solidão. Eu vivo sozinho nesse casarão aqui com Deus e os anjos. E eu não tenho tido solidão em todos esses anos na minha vida. Talvez eu seja a pessoa que viva mais só na cidade e que tenha menos solidão. Porque o amor que recebo dos meus afilhados e das pessoas que convivem com meu ser, por isso não tenho tempo para sentir solidão, justificou.

O início

O professor falou que tem visões desde que nasceu. Inclusive, disse que recebeu uma mensagem espiritual quando completou 50 anos, às 4h da manhã, de que teria mais 29 anos de vida. Ou seja, ele viverá até os 79 anos, segundo os espíritos.

Eu sempre tenho visões. Fraturei a perna e fiquei cinco meses na cadeira de rodas. Eu tive sessenta e sete visões e atendi sessenta e sete pessoas mortas. Não sou espírita. A própria bíblia diz que não se deve evocar o espírito. Mas eu recebo de vez em quando mensagens de pessoas mortas, comentou.

Os familiares do professor são todos de Barbosa Ferraz. A família é de geração de agricultores. O avô, Alberto Wobeto, já morto, construiu o casarão na década de 60. Na época, teria sido o homem mais rico da cidade. Foi o maior comprador de óleo de hortelã. Eu herdei o casarão e construí uma parte nova. Aqui vivo completamente feliz e em paz, frisou. Ele próprio faz a limpeza da casa e os serviços de jardinagem.

Wobeto é uma pessoa culta. Formado em letras, pedagogia e história. Pós-graduado e mestrado em metodologia do ensino. É professor de história, filosofia e ensino religioso. Apesar de espiritualista, ele diz que não tem ramificação espiritual alguma. Apenas trabalha o mundo espiritual.

A espiritualidade fala as coisas mais profundas possíveis, disse. O professor pode se considerar uma pessoa privilegiada. Já esteve com o Chico Xavier há 12 anos em Uberaba. Foi recebido em sua casa. Ele disse que seu nome ficou escrito no Livro de Ouro de Xavier. Apenas pessoas mais assíduas à espiritualidade podiam deixar o nome gravado no livro.

A morte

O espiritualista não teme a morte. Para ele, a morte é a coisa mais perfeita. É a última redenção do ser humano. Ele acredita que o inferno e o céu não são como pregados por outras religiões. Mas os dois existem e esta força está no universo, disse. Se você praticar o mal você vai pagar de forma drástica. E se você não tiver tempo de pagar aqui pagará em outro lugar, completou.

A professora Silvia Machado de Oliveira, 45, é uma das afilhadas de Wobeto. Ela entrou para a lista aos 12 anos. É inexplicável o amor que sinto por ele. O considero como um pai e irmão, disse ela. Silvia que já foi aluna de datilografia de Wobeto, chegou a dar aula para ele posteriormente no magistério, em 87. Wobeto é também padrinho do filho de Silvia e pai adotivo da criança com a professora.