Ele tem ‘Deus’ no nome e ‘Santos’ no sobrenome, mas vive na escuridão das trevas. A única companhia que possui, há mais de 30 anos, é uma bicicleta, com uma bolsa de roupas na garupa e a marmita que só é abastecida quando alguém lhe estende a mão. Ontem, no entanto, quando se aproximava o horário do almoço teve que jogar o alimento fora porque a comida já estava azeda. A cruz que Deusdete dos Santos Coelho, de 54 anos, carrega é pesada e difícil de suportar. Um homem que tentou a sorte por duas vezes no casamento, mas em ambos só encontrou desilusão. O jeito foi seguir sozinho no mundo.
Diante de tantas adversidades na vida, ele já nem se constrange mais ao admitir, com todas as letras, que foi trocado por outro homem, pelas duas mulheres que tanto confiava. Eu não tenho vergonha nenhuma em dizer que fui traído. Mas tenho orgulho em falar que não sou criminoso, pois para não fazer justiça com as próprias mãos, decidi abandonar a família e sair pelo mundo com minha bicicleta. Poderia ter matado a mulher e o amante dela, mas não fiz isso. Troquei a cadeia pela liberdade, desabafa Coelho.
São mais de 30 anos, pedalando Brasil afora. Nessas andanças, já passou por Minas Gerais, onde nasceu, Bahia, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, entre outros Estados. Coelho já morou na região de Campo Mourão. Diz que há muitos anos, foi peão em uma fazenda, pertencente ao ex-prefeito de Janiópolis, Alfeu Teodoro. Passei um tempo em Janiópolis, depois fui para Goioerê, onde morei com minha mãe. Ela morreu, um outro tio e um irmão, que moravam em São Miguel do Iguaçu também morreram e por fim me vi sozinho de novo. Preciso de ajuda, porque não tenho mais forças para trabalhar, como antes, clama.
A escolha do destemido ciclista, andando debaixo de sol e chuva, trouxe consequências penosas, principalmente para sua saúde. Aos 54 anos, Coelho é um homem que se ‘arrasta na vida’. Pedala com dificuldades e quando as forças o abandonam, empurra a bicicleta pelas rodovias. Ele já passou por uma cirurgia para retirada de uma hérnia. Mas com o passar do tempo, descobriu que possui outra hérnia perto do umbigo. Em Goiás, onde foi atendido e operado, o médico lhe orientou que a cirurgia no umbigo poderia lhe custar a vida. O médico disse que eu poderia morrer e então desisti da cirurgia. Tenho sofrido muito com esse problema, Para completar, diz que tem um braço quebrado.
Nas estradas, enfrenta todo tipo de risco. Na segunda-feira (27), quando vinha de Goioerê para Campo Mourão, próximo a Janiópolis, ao cruzar com uma carreta, recebeu uma pedrada na testa, atirada pelo rodado do veículo. Foi uma bica de sangue, escorrendo pelo rosto. Se pega no olho, teria ficado cego, disse. Coelho chegou a Campo Mourão na segunda-feira (27), após passar mais de dois meses pedalando. Ele saiu de Várzea Grande, próximo a Cuiabá (Mato Grosso), e em Goioerê trocou um pneu e uma câmara de ar da bicicleta. Um candidato me ajudou a consertar a bicicleta e me deu forças para continuar. Vou procurar um parente por aqui e depois vou para Marilia, onde mora uma de minhas filhas. Sou uma pessoa que nunca usou drogas, não sou violento e só bebo de vez em quando, orgulha-se.
Durante as noites, ele dorme em postos de combustíveis e não tem vergonha de pedir ajuda. No caminho, diz que conhece pessoas caridosas e outras que lhe fecham as portas. Em Dourados (MS), parei na casa de uma mulher para pedir comida e ela me chamou de vagabundo. Mandou eu ir trabalhar. Agradeci, como sempre faço, e quando saia, uma vizinha, que presenciou a cena me serviu um prato de comida, disse ele.
Limitado para seguir em frente e sentindo-se cada vez mais fraco, o andarilho quer um abrigo para ficar. Preciso de ajuda para tratar de minha saúde. Estou cansado de ser traído, de tanto sofrer e estou sem ninguém no mundo. Sei que Deus é justo e cuida de seus filhos, por isso não perco as esperanças.