Há alguns anos, era comum ver filas a espera de uma chance de matar aquela saudade, saber das últimas notícias. A privacidade não existia. As pessoas ali expunham suas preocupações, amores, desilusões e até tinham ataques de fúria. Poucos se importavam com a demora, afinal, tinha chegado sua vez. A cobrança das ligações era feita por pulso e não por minuto.
O pagamento era feito com indiscretas e pesadas fichas de metal, que ao caírem, identificavam imediatamente, para quem estava do outro lado da linha, se tratar de um telefone público. O uso de cartões por minuto parecia, então, uma grande evolução. Algumas cidades aproveitavam as peças para caracterizar a cultura local, como orelhões em forma de coco, encontrados em Salvador (BA), ou peças gigantes, vistas em Itu (SP).
Mesmo com a facilidade em se adquirir um telefone fixo ou um celular, os telefones públicos, conhecidos como orelhões, ainda são usados. E, se no passado, havia reclamações da falta de cuidado com as peças, hoje a situação não mudou.
Em Campo Mourão muitos orelhões ainda funcionam. Alguns têm atenção especial de comerciantes que dividem o espaço com aqueles já esquecidos telefones. São quase unânimes os telefones que se perdem em meio a tantas propagandas, as mais comuns são de mototáxi ou serviços de prostituição. Alguns aparelhos já estão descuidados e velhos. Eles apresentam os sinais do tempo: ferrugem, números apagados, som baixo e sujeira, muita sujeira.
A caixa de um mercado no bairro Jardim Santa Cruz, Gislaine Anunciação, relata que o telefone público que fica em frente ao estabelecimento é um dos únicos da rua que funciona com perfeição, mas que mesmo assim, um dia ou outro, amanhece quebrado. E então, procuram os responsáveis para que o conserto seja providenciado. Esses dias arrancaram o telefone’, conta a caixa.
Apesar dessa luta constante para manter o orelhão sempre funcionando, as propagandas ainda são a principal reclamação. Isso fica horrível. Limpam em uma semana e na outra já está cheio de novo, reclama Gislaine.
Segundo ela, eles vivem nessa situação de arrumar e consertar o telefone, apesar de quase todas as ruas do bairro contarem com um orelhão. Esse é bastante utilizado, por isso não tem como ficar sem, justifica.
Rozir Rocha Silva é proprietário de um bar há 25 anos no Jardim Modelo. O orelhão localizado na frente do seu estabelecimento foi instalado há quatro anos, mas conta que antes outros já haviam sido instalados e retirados. Se a gente não tem crédito no celular, usa o orelhão, ressalta.
Assim como outros casos, o telefone nem sempre está disponível para uso. Hoje com o celular, eu uso pouco, mas quando preciso do orelhão ele está quebrado. Eles são muito antigos, os aparelhos são velhos. Dá muita manutenção, frisa.
Em muitos bairros a cena se repete. Orelhões em funcionamento, mas nem sempre tão bem cuidados. São muitas as propagandas e aparelhos sujos. No conjunto habitacional Moradias Avelino Piacentinni, a população conta com apenas dois orelhões, sendo um deles localizado na rua principal, a Avenida dos Lagos. O celular é o meio mais utilizado pelos moradores.
O pintor, Valdecir dos Santos, é um dos que preferem usar o aparelho celular, mesmo com um orelhão na frente de casa. Desde que se mudou para o local, há quatro anos, o aparelho já estava instalado. Ele está sempre estragado, diz. A função do telefone público para Valdecir é somente quando os créditos do celular, que ele usa para trabalho, acabam e ele precisa fazer uma ligação urgente.
Assim como outros orelhões, o que está em frente à casa de Valdecir também é alvo de vândalos. Ele já viu um rapaz ficar nervoso em uma ligação e bater, até quebrar a parte do aparelho – que serve para ouvir e falar – tornando seu uso inviável por um tempo. E, além disso, há uma imensa quantidade de propagandas grudadas.
Para que o aparelho não fique esquecido, Valdecir aponta que o ideal seria transferi-lo para frente de um mercado próximo a sua casa. De acordo com o pintor, lá o telefone não ficaria tão esquecido e cumpriria melhor com sua função. No mercado tem bastante movimento, tem um ponto de ônibus perto, justifica.