Programa alfabetiza quem faz hemodiálise

Ler, escrever, pintar e desenhar. Tarefas simples, que qualquer criança tira de letra já nos primeiros contatos com a escola. Mas o índice de analfabetismo no Brasil ainda é grande: 14 milhões de pessoas, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Hoje, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever um bilhete simples. Para tentar reduzir esses números, a educação tem sido levada a vários ambientes, inclusive hospitalares, frequentado por pessoas que não teriam condições de buscar o aprendizado em uma escola normal.

Em Campo Mourão, um grupo de pessoas submetido a sessões de hemodiálises, no Instituto do Rim, está tendo a oportunidade de se alfabetizar por meio do programa Paraná Alfabetizado, que nasceu do projeto Brasil Alfabetizado. O programa atende também os idosos do Lar dos Velhinhos Frederico Ozanan, Comunidade Terapêutica Redenção (CTR), ocupada por dependentes químicos, além de algumas escolas.

Para quem nunca teve a oportunidade de sentar em um banco escolar, o primeiro contato com o lápis e o caderno causa uma sensação de liberdade e de muita satisfação. Que o diga dona Maria de Lurdes Nicola, 56 anos, de Engenheiro Beltrão, que só agora aprendeu a escrever o seu nome. Empolgada, já não vê a hora de refazer os seus documentos para poder registrar sua assinatura, no lugar de analfabeto. Nunca frequentei escola, nos meus documentos sou registrada como analfabeta, conta ela.

Maria de Lurdes é um dos inúmeros casos de pessoas que no passado eram obrigadas a trocarem a escola pela enxada. Desde os 12 anos trabalho na roça e o pouco que aprendi já havia esquecido. Há três anos descobri que precisava fazer hemodiálise em Campo Mourão e, desde então, passei a estudar com uma professora que tem me ajudado muito. São três dias por semana fazendo esse tratamento, durante quatro horas diárias e com os estudos a hora passa mais depressa e a gente aprende mais, declara ela.

Benedita de Paula Ferreira, 67 anos, mora em Terra Boa, mas também passa pelo menos 12 horas por semana no Instituto do Rim, ligada a uma máquina de diálise. Com o programa Paraná Alfabetizado, essas horas já não são mais tão angustiantes. Comecei e estudar aqui há quatro anos e gosto muito de desenhar. Também aprendi a fazer contas. Além disso, me distraio e as horas passam mais rápido. Já não é mais tão difícil passar tanto tempo aqui dentro, afirma ela. 

Aluna dedicada, Benedita leva tarefas para casa como qualquer estudante. O que não consigo terminar durante a aula, com a professora, levo para casa. Faço tudo direitinho e gosto de ler livros, diz ela, que estudou até o terceiro ano do ensino fundamental.

Já a dona de casa Márcia Alves Madeira de Souza, tem 43 anos e também elogia o programa educacional. Ela sabe ler e escrever e agora está tendo a oportunidade de aprimorar seus conhecimentos. Gosto muito, principalmente de resolver caça-palavras e formular frases, que a professora pede. Completei a 4ª série e tive que deixar os estudos, quando criança ainda, para trabalhar. Na época, estudar não era importante. Hoje estudo e incentivo meus filhos. Um deles faz faculdade em Umuarama, aprova ela. O projeto atende pessoas a partir dos 14 anos de idade, dando preferência a quem é analfabeto.

Professoras afirmam que a maioria é dedicada           

De um lado pessoas aproveitando o tempo ocioso para aprender e do outro, professores ensinando com baixa remuneração, mas com muita dedicação. Dolaira Schanberlain, 58 anos, é aposentada na profissão, porém encontrou no programa Paraná Alfabetizado um jeito de continuar fazendo o que mais gosta. Ela leciona tanto no Instituto do Rim, quando no Lar dos Velhinhos. É uma experiência nova, nunca havia trabalhado com idosos. Vejo como um projeto mais de caráter voluntário, pois o salário é muito baixo, diz ela.

O interesse e a alegria que proporciona, principalmente aos idosos, servem de motivação para Dolaira. Fico feliz em poder ensinar pessoas que nunca tiveram uma oportunidade. Para mim também é uma terapia. Alguns aprendem com certa facilidade, outros são doentes e fica mais difícil, mas todos são dedicados. Tenho uma aluna de 90 anos, que não perde nenhuma aula. Outros, com mais de 60 anos, estão aprendendo a ler. É muito gratificante, afirma.

A professora Salete Rosnoski Nantes, 42 anos, diz que a maioria dos pacientes fica ansioso quando ela atrasa um pouco para chegar. Quando chego, eles já estão esperando. Dizem que já tomaram café e estão prontos para estudar. Isso nos dá muita motivação. Vejo pessoas interessadas em estudar, mas pela enfermidade sofrida não podem acompanhar o ritmo normal de uma escola.

Salete diz que o próprio médico, responsável pelo Instituto do Rim, fala sobre a importância do programa educacional para a saúde dos pacientes. O médico diz que muitos tinham problemas e passavam mal, mas hoje estão reagindo bem, por causa desse projeto de alfabetização que mantém todos com a mente ocupada. É uma forma de fazer com que eles aceitem melhor o tratamento. Sempre procuramos ensinar, de acordo com o desenvolvimento de cada um, sem exigir nada mais do que eles podem oferecer, enfatiza.

O projeto, iniciado em 2004 em Campo Mourão, é coordenado pela professora Helena da Silva Rosa, 69, que está sempre acompanhando as atividades dos professores. É um programa que melhora e muito a vida desses pacientes. Pessoas acima de 60 anos aprendendo a ler nos deixa muito felizes. Alguns falam que agora já podem fazer leitura na igreja e ir ao supermercado. Quando chego a fazer visitas no asilo, é uma festa total. Eles demonstram muito interesse.