João Maria Gonçalves, 75 anos, e Patrício Ferreira da Silva, 66. Dois técnicos em eletrônica, especializados em conserto e manutenção de televisores, mas que nos últimos anos só acumulam prejuízos com a profissão em Campo Mourão. O que no passado era um negócio dos mais lucrativos, principalmente em anos de Copa do Mundo, hoje se transformou em dor de cabeça, pois a facilidade em adquirir um novo e moderno aparelho para assistir aos jogos do Brasil faz com que as pessoas descartem as TVs velhas. E mesmo quem leva os aparelhos para consertar, na maioria dos casos acaba não voltando para buscar.
Os dois profissionais ocupam estabelecimentos pequenos, onde passaram a dividir espaço com carcaças e peças desmontadas de televisores gigantes, algumas muito antigas que chegam a pesar até 90 quilos. O drama só aumenta, pois além de não faturarem quase nada ainda não encontram local para fazer o descarte adequado, sem agredir o meio ambiente. Eu não sei mais o que fazer, pois a prefeitura não dispõe de um lugar para depositar esse tipo de lixo eletrônico e no meu estabelecimento não cabe mais nada, desabafa Ferreira.
Na mesma situação, Gonçalves também deixou de ter lucro com o negócio há muito tempo. Tanto que nos últimos anos passou a trabalhar com venda e manutenção de aparelhos de choque elétrico em cerca para animais. Tive que me virar, pois consertar televisão já não compensa mais. Hoje eu só aceito ficar com o aparelho se a pessoa deixar a metade do serviço pago como garantia, pois tenho uma pronta para a entrega há um ano e meio e o cliente não quer saber mais. Até autorizou que eu venda para outra pessoa para tirar o dinheiro do conserto, mas além de não compensar e não ter interessados, seu eu fizer isso é bem provável que ele leve o caso à justiça. Já tive amigos que se complicaram por vender aparelhos que o dono havia praticamente abandonado, diz ele.
Gonçalves lembra que no passado o técnico em eletrônica ganhava muito dinheiro. Em anos de Copa do Mundo ele conta que não dava conta de tanto serviço. Todo mundo o procurava para dar manutenção na televisão ou no rádio a pilha. Era tanta procura que Gonçalves abandonou o sítio para morar na cidade. Isso foi na Copa de 1978, quando eu vinha de bicicleta do sítio para trabalhar na cidade. Mas como era muito serviço passei a morar na cidade, pernoitando no antigo Hotel Roma, e virava a noite trabalhando. Mesmo assim ainda tinha que rejeitar trabalho. Ganhei dinheiro suficiente para comprar uma casa. Lembro-me que em 15 dias ganhei mais dinheiro que em dois meses na roça, não tinha nem comparação, destaca. Hoje em dia, quando tem Copa do Mundo as pessoas jogam fora a TV antiga e compram outra nova.
Quem chega na eletrônica de Patrício Ferreira, já encontra pouco espaço para entrar, por conta do grande número de televisores amontoados por todos os lados. Nos fundos ele trabalha em um espaço apertado, por estar rodeado de peças, aparelhos inteiros e carcaças, que o eletricista não sabe como se desfazer. Tenho em torno de 40 peças descartáveis e outras 20 prontas para a entrega. Com a evolução dos aparelhos de Plasma, LCD, e LED, as convencionais foram praticamente esquecidas. Pior é que alguns jogam as antigas no lixo, o outro passa, pega e traz para a gente consertar. É preciso analisar direitinho e saber a procedência, pois caso contrário acaba acumulando ainda mais ferro-velho, comenta ele, que trabalha no ramo desde a adolescência: Quando tinha 11 anos já fazia manutenção em casa mesmo para os amigos.
Tem cliente que chega a demorar até oito meses para buscar a TV, o que só faz aumentar os transtornos. Estou com a televisão de um amigo, há um ano e quatro meses e não posso fazer nada. Está ocupando espaço, mas por ser amigo não posso me desfazer dela. Algumas são enormes, de 34 e até 54 polegadas, que chegam a pesar 90 quilos. Em casos assim a gente faz o orçamento e dá prazo de 72 horas ao cliente. Se não tem conserto, ele tem que levar embora de novo. É um negócio tão grande que fica até difícil de manusear, afirma. Há 20 ou 30 anos, Ferreira conta que chegava pegar até 60 serviços por dia. Hoje não chega a 15 por semana. Na década de 80 e 90, teve dia em que recebia, em média, 40 toca-fitas, 30 televisores e 25 rádios para conserto. A gente não dava conta de tanto serviço.
Para ele, a prefeitura deveria arrumar um espaço para esse tipo de lixo eletrônico. Não tenho mais espaço onde trabalho e a prefeitura não tem destinação correta. Como não posso jogar na rua, estou pensando em usar um canil lá de casa, onde pretendo colocar todas essas carcaças e cobrir de cimento. É uma profissão que em breve vai acabar. Como a gente não sabe fazer outra coisa e já passou dos 60, tem que continuar teimando nesse ramo, desabafa.