Maria da Glória e seus 23 filhos

Vila Santa Maria, rua Lazaro Correia, nº 372, Mamborê. No endereço reside a aposentada Maria da Glória, 75. Com aproximadamente 1,60 metro, cabelos já esbranquiçados e marcas de expressões visíveis pelo rosto por causa da idade avançada, aparentemente ela é uma frágil senhora. Mas só a aparência. Na verdade, dona Maria é uma guerreira sem igual. Mais do que ninguém, conhece bem o que é ser mãe. Impressionantemente deu a luz a 23 filhos, dos quais 11 são homens e 12 mulheres. Sofri muito, mas os meus filhos representam a cor do meu coração, disse ela à TRIBUNA. Neste Dia das Mães, comenta, o único presente que queria, são os filhos que já morreram de volta. Sinto muita falta deles.

Descendente de indígena, a aposentada é natural de Rio Azul, interior do Paraná. Ela recorda que se casou muito nova, fugiu de casa aos 13 anos. Sua primeira gravidez veio aos 14. Depois que fiquei grávida meu pai me fez casar, recordou. Segundo ela, para o casamento no cartório, o pai inventou sua idade para 18 anos. Antigamente as famílias não aceitavam mulher grávida solteira, lembrou. Dona Maria teve em sua vida um único homem, com quem teve todos os filhos. O marido morreu há cerca de 15 anos.

A aposentada conta que não foi fácil para criar as crianças. Os recursos, afirma, sempre foram muitos escassos. Hoje, dos 23 filhos, 15 são mortos. Dona Maria explicou que morreram ainda crianças, de febre, tosse cumprida e sarampo, doenças mais comuns da época. Era muito difícil se criar um filho, não tínhamos recursos, e o médico era muito longe. Já perdi alguns filhos no meu braço enquanto levava para o médico, recorda.  Ela disse que teve tantos filhos porque os métodos contraceptivos eram de difícil acesso.

De acordo com a aposentada, dos 23 filhos, 21 nasceram de parto normal. O mais curioso é que o procedimento era feito em casa, pelo próprio marido. Só os dois últimos ganhei de cesárea, afirmou. A maioria dos filhos tem diferença de apenas um ano de idade. Apesar de tudo, foi um sofrimento que hoje me traz felicidade. Valeu à pena, garante. Ela comentou que para criar os filhos, já coletou materiais recicláveis na rua, capinou lavouras pela região e até mesmo foi dona de um ferro velho por algum tempo. Na maioria das vezes, os filhos a acompanhavam no trabalho, pois não tinham com quem ficar em casa.

Hoje dona Maria se acha uma vencedora. Se diz realizada com os 23 filhos, embora apenas oito ainda estejam vivos. Agora é a vez deles cuidarem de mim, disse aos risos. A filha, Ivete Aparecida Correa, 48, que acompanhou a entrevista e coincidentemente nasceu em um Dia das Mães, diz que a mãe é ‘sua vida’. Parte do sofrimento da aposentada foi acompanhado por Ivete. Não tenho palavras para descrever a minha mãe. Ela é uma fortaleza, disse.