Ato de posse da nova diretoria da Eletrosul é realizado

A reportagem da Associação de Diários do Interior do Brasil (ADI-BR) acompanhou a primeira entrevista coletiva do novo presidente da Eletrosul, Djalma Berger (PMDB, formado em Engenharia Civil), e do novo diretor Financeiro, Claudio Vignatti (PT, formado em Gestão Pública). Durante uma hora, falaram do processo que os levou à direção da maior estatal federal do Sul do país, dos rumos da empresa, da situação financeira e dos investimentos.  Desde o dia 16 de julho, com a aprovação de seus nomes pelo Conselho de Administração da Eletrosul, os dois somaram-se aos diretores que já atuavam na empresa – Paulo Afonso Vieira (Administrativa), Ronaldo Custódio (Engenharia) e Antonio Vittori, que deixou a Diretoria Financeira para assumir a de Operação. O ato de posse, realizado nesta terça-feira (28), ganha peso político com a presença confirmada do presidente da Eletrobras, José da Costa Carvalho Neto, e do presidente do Conselho de Administração da Eletrosul e diretor de Geração da Eletrobras, Valter Cardeal, além de lideranças políticas e empresariais dos quatro estados de abrangência da estatal – Santa Catarina, onde está a sede, Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul.

A composição:

Djalma Berger – Vivemos aqui um período que gerou algumas dúvidas com relação à condição da empresa. Achamos por bem convidar a imprensa para falar sobre os rumos e de como se formou a composição. Não é fruto propriamente de um acordo entre o senador Dário Berger (irmão de Djalma) e Michel Temer (vice-presidente da República). Isso é resultado de um acordo de bancada. Quando os partidos disputam a eleição, têm que ter também a responsabilidade de conduzir o processo político de gestão do país. E o PMDB, meu partido, nunca se furtou a essa condição. E se decidiu que os nomes que representariam melhor, em condições técnicas e políticas, seriam os nossos. Esse foi o acordo. E o Vignatti dispensa comentários. Por vários anos foi membro da comissão de orçamento e da Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados, foi relator do Orçamento e do PPA (Plano Plurianual). Uma pessoa que conhece tudo de finanças e, principalmente, tudo de finanças do Brasil, que tem uma contribuição extraordinária a dar à Eletrosul nesse momento de investimentos que estamos vivendo.

Claudio Vignatti – O processo de ocupação das funções federais nos estados passa por um debate nacional e são avalizadas pelos partidos. O que nós queremos é montar uma base de sustentação que possa apoiar a presidenta Dilma Rousseff na relação política. A missão é de construção política entre os partidos da base, tanto PT, quanto PMDB, quanto PR… devagarzinho as funções estão sendo ocupadas. No caso da Eletrosul não foi diferente. Eu tenho facilidade de me adaptar e trabalhar com as pessoas e sinto segurança em trabalhar com o Djalma, que já foi engenheiro da Eletrosul e conhece muito o setor. Vamos usar a nossa relação política, além da responsabilidade que temos no dia a dia da empresa, para reforçar o papel da Eletrosul em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Paraná, no Mato Grosso do Sul e em Brasília sempre que necessário. A energia é um bem essencial e temos que qualificar a transmissão para levar energia para onde está faltando. Está sendo um desafio novo e estou gostando dele. Nós podemos ajudar o Brasil.

Missão:

Berger – A Eletrosul é uma empresa que caminha praticamente sozinha. Nossa função é mais institucional, de definição de rumos para a segurança do setor elétrico. Essa é a missão principal da Eletrosul. Os investimentos são pautados por dois objetivos: ter produção de energia suficiente para atender a demanda e linhas de transmissão suficientes para transferir essa energia para os locais onde haja a demanda. Foi a missão que recebemos da presidenta Dilma e do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga.

Saúde financeira e Jirau:

Vignatti – A Eletrosul participa de várias obras de geração e de transmissão e a maior parte delas está dentro do cronograma. As que estão atrasadas é por motivos que não dependem do governo. É o caso da hidrelétrica Jirau (RO), da qual a Eletrosul participa significativamente. Está andando, mas teve dois incêndios em canteiro de obras e tem licenças atrasadas. Mas é importante dizer que Jirau já está gerando energia, só que não no volume total do contrato. Aliás, estamos elencando todas essas situações, porque o atraso no licenciamento leva a se perder na burocracia se a situação não for tratada também na política. Por isso, vamos visitar os quatro governadores e falar dos investimentos que estão sendo feitos em cada estado. Vamos construir uma relação com os órgãos ambientais estaduais para dar celeridade às liberações ambientais necessárias. Quanto mais atrasa uma obra de geração ou de transmissão, mais a Eletrosul perde arrecadação. Queremos potencializar a empresa e estamos nos preparando para participar de leilões. Temos recursos para receber, de compensação com a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), e não é pouco. Também estamos lançando captação de recursos no mercado, ação aprovada no Conselho, para investimentos. E queremos buscar o dinheiro que temos a ver do Tesouro Nacional, em valor superior a R$ 1 bilhão. Por isso podemos lançar a captação de recursos, porque temos lastro.

Berger – A Eletrosul tem dificuldades como toda empresa. É um momento de dificuldades para todos. Sobre Jirau, a Aneel autorizou o consórcio que executa a obra, do qual a Eletrosul tem 20%, a retirar do cronograma 560 dias. Quando se constrói uma usina, há o compromisso com a Câmara de Comercialização de Energia (CCE) e com a Aneel de um prazo para entrada em operação. Em Jirau ocorreram dois incêndios, a princípio criminosos, além de problemas com desapropriações e questões com terras indígenas, o que fez com que a obra tivesse todo esse atraso e, por consequência, atraso também na oferta de energia dessa hidrelétrica. A retirada desses 560 dias do cronograma vai nos dar um fôlego financeiro nesse período em que o Brasil passa por sérias dificuldades. Nós também vamos enfrentar dificuldades, mas com toda energia. Tão logo tenhamos números incontestes sobre as finanças da Eletrosul, vamos repassar à imprensa para que a sociedade saiba a maneira como estamos assumindo a empresa e o rumo que vamos tomar.

Termelétricas a carvão:

Berger – Depois que a Eletrosul decidiu retomar a atividade em geração, está apta a participar de investimentos em todas as fontes. Então, hoje, se estrategicamente for interessante para a empresa e para o país construir uma térmica a carvão, temos condições para tal. Entretanto, a empresa está muito mais direcionada para as energias renováveis, como é o caso da eólica, a exemplo do investimento extraordinário que foi feito no Chuí (RS). Mas não há restrição ao carvão. Conheço a Termelétrica Candiota (RS) e trabalhei na Jorge Lacerda (SC). Hoje, já deu para perceber que só a energia das hidrelétricas não é suficiente para mantermos a segurança. Por conta disso, tem investimentos gigantescos, até da Tractebel, em termelétricas. O carvão do Sul do país tem qualidade semelhante, com uns 30% de cinza, que hoje já não gera passivo ambiental. Toda a cinza produzida é usada na indústria cimenteira e às vezes vale até mais que o carvão. Houve uma evolução da tecnologia. Já estamos conversando com a SATC (Associação Beneficente da Indústria Carbonífera de Santa Catarina) visando estudos aprofundados e análise da viabilidade técnica e financeira para saber se a Eletrosul deve participar de projetos nessa área. Mas posso afirmar que a matriz energética brasileira necessariamente passa pelas térmicas. Não temos mais condições de suprir a demanda de longo prazo se não utilizarmos as térmicas. E não de diesel que, além de poluente, tem custo de mil reais por megawatt/hora, enquanto o carvão fica em 300 reais o MWh e uma usina como Jirau, 80 reais o MWh.

Vignatti – Teve um leilão para geração a carvão em 2014 e não houve habilitados. O investimento era em torno de R$ 3 bilhões. Agora a Eletrosul está se preparando para participar de leilões de transmissão, negócio principal da empresa e fonte de renda muito segura.

Governo Dilma:

Vignatti – A presidenta Dilma vai encerrar o mandato. Não tenho dúvidas disso. E o próprio Michel Temer tem dado mostras semanais de que está junto até o final nesse processo todo. Estamos em processo de transformação da economia. São mudanças, mas a economia vai reagir e há sinais positivos, como a indústria exportando mais e o saldo positivo da balança comercial. Nos últimos anos, a indústria vinha perdendo competitividade por conta do câmbio e agora está alavancando as exportações. A reação começa pela indústria que, para produzir mais, vai precisar de mais energia e isso movimenta a economia, gera empregos. Não é de uma hora para outra, mas vamos ter a retomada econômica e, se acertarmos na política, o governo vai atravessar esse inverno difícil e terá boas primaveras pela frente.