Alguns ditados populares são tidos como verdades absolutas, mas será que esse é o caso do tão famoso Querer é poder?. Para muita gente pode até não ser, mas para o agricultor de Janiópolis Dirceu Nunes Pereira, 58 anos, parece não existir o impossível. Após comprar uma chácara na comunidade Graminha, entre Farol e Janiópolis, ele decidiu colocar em prática o sonho que sempre teve de construir um pesqueiro. Até aí tudo normal, mas o inacreditável é que ele não quis saber de utilizar nenhum tipo de maquinário para fazer o serviço. Comprou uma enxada, pá e enxadão, arregaçou as mangas e começou a trabalhar, sem se preocupar com domingos, feriados e horário. Eu só respeitava Sexta-feira Santa, mas trabalhei no Natal, Ano Novo, e todos os outros feriados, não havia descanso. Considero o que fiz como uma guerra, afirma Dirceu.
No total o obstinado homem abriu sete açudes, ou tanques para criar peixes, sendo um deles com cerca de 40 metros de comprimento por cerca de cinco de largura e quase três de profundidade. Quem visita a chácara não acredita no que vê, mas basta caminhar um pouco pelos arredores dos açudes para perceber o capricho com que Pereira preparou tudo, deixando as margens devidamente preparada com degraus feitos com a pá e enxada no barranco, o que permite que ele caminhe com segurança e fisgue alguns peixes que cria no local.
Para evitar assoreamento, o agricultor abriu córregos, também com a força dos braços para desviar a água da chuva. Isso porque a própria força da natureza já quase colocou por terra o seu sonho. Eu havia terminado tudo, quando uma enchente trouxe muita terra para dentro dos açudes e tive que refazer todo o serviço. Quase desanimei, lamenta. A construção dos açudes aconteceu entre 1993 e 2000, quando Pereira adquiriu a propriedade. Na época o agricultor conta que tinha cerca de 40 anos e muita disposição. Me lembro que enquanto esquadrejava uma, já começava a outra. Trabalhava feito louco, inclusive de madrugada, com um lampião a gás iluminando. Quem passava na estrada ao lado não acreditava. Mesmo no inverno e com geada eu não desanimava, diz ele.
Solteiro e morando sozinho na chácara, Pereira nem se alimentava direito. Quando sentia fome entrava na casa, transformada em um pequeno boteco, onde comia doces e bebia umas cachaças. É o que ele vende até hoje no local. Eu nem fazia comida, pois só pensava em limpar aquela lama e terminar os açudes. O maior problema era esse. Como o local tem muitos ‘olhos d´água’, eu não conseguia nem usar carriola para tirar a terra, pois tudo virava em lama. Quantas vezes eu levantava uma barragem e quando via já tinha ido tudo rio abaixo.
Era um esforço fora do normal, meu coração disparava e eu deitava, cheio de lama. Peguei anemia e pensei que não ia resistir, pois passei até 30 dias sem dormir, trabalhando de madrugada também. Meu coração demorou um ano para voltar ao normal após o término, pois no início ainda tive que arrancar tocos de árvores, tudo na base do enxadão. Para se ter uma ideia, até o término do serviço gastei mais de quatro enxadas, pás e enxadões, os quais até guardo de lembrança.
Ele conta que não podia parar antes de terminar, porque a água brotava por toda a parte e o serviço ficaria perdido. Tinha que ir refazendo o tempo todo porque era muito barro por causa das minas que não paravam de surgir, mas eu não desanimava. Sem poder usar sequer um carrinho de mão, o jeito era improvisar para jogar a terra (ou barro) com a própria pá para fora do buraco. Para isso eu usava cabos com mais de três metros de comprimento nas ferramentas, pois tinha que jogar longe aquela sujeira. Minhas mãos ficaram destruídas. Vendo como está hoje, acho que não teria coragem de fazer de novo. Até um vizinho quis me contratar para fazer uma represa, mas não aceitei. É muito trabalho, explica.
Pereira continua morando sozinho na propriedade e isolado. Só vou mesmo a Janiópolis para fazer algumas compras, mas nem Campo Mourão eu conheço direito, revela. Ele conta que tem nove irmãos, alguns morando na região e outros em São Paulo. Sobre a propriedade ele pensa em organizar melhor o espaço no futuro para transformar em um pesque-pague, ou arrendar para outra pessoa. Só não vendo, garante. Também usando a enxada, ele aplainou outro espaço da chácara para o jogo de malha.
O fato de morar sozinho contribuiu para a realização de seu sonho. Se eu tivesse uma mulher acho que não teria conseguido fazer tudo isso, brinca. Satisfeito com o que produziu, Pereira tem hoje uma curiosidade: descobrir se existe no mundo outra pessoa que tenha feito algo semelhante. Se existe queria conhecer e dar os parabéns, mas se não existe, gostaria de entrar para o Guinness Book (Livro dos Recordes), sonha.