A eleição acabou. Os desafios do campo, não!
A eleição acabou, mas, para quem vive do campo, as preocupações continuam. A próxima safra precisa ser financiada, os insumos precisam ser comprados, as contas vencem, o clima não dá garantias e o preço de venda nem sempre acompanha o custo de produção.
A pergunta, portanto, não é apenas quem ganhou a eleição. É o que muda, na prática, para quem produz. A resposta honesta é que, no curto prazo, muda pouco. Juros elevados, dívidas acumuladas, insumos caros, seguro insuficiente e instabilidade no mercado externo continuam presentes, independentemente do resultado das urnas.
Isso não é motivo para desânimo. É um convite a olhar para duas frentes: o que depende do poder público e o que está ao alcance do próprio produtor para proteger seu patrimônio e a continuidade da atividade.
Dívida e crédito: o ponto mais urgente
Segundo o Cepea/CNA, o agronegócio respondeu por 25,1% do PIB brasileiro em 2025. Ainda assim, muitos produtores enfrentam dificuldades para fechar as contas. A inadimplência na carteira de agronegócio do Banco do Brasil chegou a 6,27% no primeiro semestre de 2026. Por trás desses números está a família que perdeu uma safra para o clima, financiou a seguinte a juros elevados e agora tenta preservar a propriedade.
O Plano Safra 2027/28 será o primeiro inteiramente elaborado no novo mandato, mas o anúncio de bilhões em Brasília só se transforma em apoio efetivo quando os recursos chegam ao produtor em condições que ele consiga pagar.
O que está ao alcance do produtor: não esperar uma nova medida emergencial para organizar sua situação financeira. Quando a dificuldade de pagamento decorre de frustração de safra, problemas de comercialização ou outros eventos adversos previstos nas regras aplicáveis, pode haver direito à prorrogação da dívida rural. A Súmula 298 do STJ reconhece que, preenchidos os requisitos legais, o alongamento não é mera liberalidade do banco.
Cada caso precisa ser examinado individualmente.
Formalizar o pedido com antecedência, acompanhado de laudos e documentos que demonstrem as causas da dificuldade, pode fazer diferença na negociação.
1. Fertilizante caro: economizar sem se expor
Reportagens da Globo Rural e do Valor Econômico apontam que o consumo de fertilizantes no Brasil pode cair até 16% em 2026, segundo estimativas atribuídas à Argus, à Mosaic e à CNA. A Anda indica que as entregas de janeiro a julho foram 8,8% menores que no mesmo período de 2025. A pressão vem de tensões no Oriente Médio, matérias-primas caras, restrição de oferta e crédito mais caro.
Segundo a Aprosoja Brasil, muitos produtores estão recorrendo à reserva de fósforo do solo para atravessar esse momento. É uma escolha difícil: manter o investimento pode significar mais dívida, e reduzir exige cuidado para não comprometer a produtividade das próximas safras.
O cuidado necessário: se houver frustração de safra, o banco e a seguradora poderão avaliar se as perdas decorreram do clima ou do manejo. Uma redução de adubação fundamentada em análise de solo e recomendação profissional documentada permite demonstrar os critérios da decisão. Sem esses registros, a comprovação fica mais difícil numa discussão sobre prorrogação ou cobertura securitária. Se o planejamento apresentado ao banco mudar, vale formalizar os ajustes.
2. Seguro rural: o elo mais fraco
Segundo a Fetag-RS, menos de 10% da agricultura brasileira conta com algum tipo de seguro. A área segurada com subvenção do governo gira em torno de 3%. Quando uma safra é perdida, o prejuízo não termina na lavoura: compromete os financiamentos, a compra de insumos do ciclo seguinte e o orçamento da família.
O novo marco legal do seguro rural ainda depende de regulamentação, e a discussão sobre um fundo para grandes catástrofes segue em aberto. Até lá, parte significativa do risco continua concentrada nas propriedades.
O que está ao alcance do produtor: tratar o seguro e o Proagro como instrumentos de proteção desde o planejamento da safra. Isso significa conhecer as condições de cobertura, observar o zoneamento e as recomendações técnicas, guardar notas fiscais, registrar o manejo e comunicar sinistros no prazo.
3. Mercado externo: as regras do jogo estão mudando
Nos últimos dias o Wall Street Journal noticiou que os Estados Unidos retiraram tarifas de 50% sobre determinados produtos agrícolas e florestais do Canadá, impostas pouco antes. O episódio mostra que, quando tarifas são usadas como instrumento político, quem exporta precisa estar preparado para mudanças repentinas.
Ao mesmo tempo, o Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR, Regulamento UE 2023/1115) exige comprovação de que produtos como soja, café e carne bovina não estejam associados a desmatamento posterior a 31 de dezembro de 2020. O calendário de aplicação deve ser acompanhado. Na pecuária, o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos prevê implementação plena até 2032.
O que está ao alcance do produtor: manter o CAR atualizado, organizar a documentação ambiental e preparar os registros de rastreabilidade, que já influenciam o acesso a mercados e a relação com tradings e frigoríficos. Nos contratos de venda, é importante entender quem assume os custos de mudanças tarifárias ou de novas exigências regulatórias.
4. Logística e armazenagem: vender na hora errada custa caro
A falta de armazenagem pode obrigar o produtor a vender logo após a colheita, quando a oferta é maior e os preços estão pressionados. Estradas ruins, limitações ferroviárias e gargalos portuários consomem parte da margem conquistada no campo.
É uma questão estrutural, mas seus efeitos são sentidos dentro da porteira.
Para produtores de médio porte, linhas de crédito para armazenagem merecem avaliação cuidadosa, considerando o custo do financiamento, a escala e a capacidade de pagamento.
Em alguns casos, alternativas coletivas ou contratos de armazenagem podem ser mais adequados.
O que realmente importa daqui para frente
Nos próximos meses, vale acompanhar a composição das equipes da Agricultura e da Fazenda, o Plano Safra 2027/28, o futuro dos subsídios ao diesel, a regulamentação da reforma tributária e da Lei de Bioinsumos (Lei 15.070/2024) e as políticas para fertilizantes.
Políticas públicas, porém, levam tempo para sair do papel, e a próxima safra já exige decisões.
Independentemente do governo, há providências que merecem atenção desde agora: revisar contratos, organizar documentos, entender as condições dos financiamentos e buscar orientação antes que uma dificuldade se transforme em crise.
Isso não elimina os riscos do campo. Mas estar preparado reduz os impactos de um cenário adverso e ajuda a preservar o que levou anos para construir.
O campo já provou que sabe produzir. O desafio dos próximos anos é produzir protegido.
Rafael Veríssimo Siquerolo, sócio-diretor do Veríssimo & Viana Advogados. Mestre em direito negocial e professor em cursos de pós-graduação voltados ao direito do agronegócio.

