‘Vou usar minha voz’, diz advogado ao reagir lista de boicote por voto em Lula

Silvio Zamora teve o nome incluído em relação que circula em grupos de mensagens e decidiu se manifestar publicamente.

Silvio Zamora emoldurou a lista com a inscrição “ESQUERDA CM”, divulgada em grupos de WhatsApp. O quadro, afirmou, permanecerá no escritório enquanto ele viver, à vista dos clientes e de quem entrar no local

“Não sou e nunca fui petista e votei em Lula pela primeira vez na minha vida.” Com essa declaração, o advogado Silvio Zamora, de 57 anos, tornou pública sua reação à inclusão do próprio nome em uma lista de pessoas e empresas apontadas como petistas em Campo Mourão. Segundo ele, a relação passou a circular depois do segundo turno das eleições, acompanhada de manifestações de boicote em grupos de mensagens.

Entre as manifestações contrárias à iniciativa, seu vídeo chamou a atenção pelas palavras contundentes contra o radicalismo de direita. Zamora decidiu emoldurar a lista e expô-la no escritório. Ao assumir publicamente sua posição, mesmo diante da possibilidade de críticas e represálias, o advogado, na expressão popular, “deu a cara a bater”.

A defesa dos programas educacionais tem relação com sua trajetória. Antes da advocacia, Zamora trabalhou na lavoura, perdeu o patrimônio após as secas de 2004 e 2005 e retomou os estudos. Segundo ele, o financiamento estudantil viabilizou sua formação, a da esposa e a das duas filhas. “Isso tudo graças aos programas do governo, porque eu fiz pelo FIES, eu, minha esposa e as duas filhas, e pagamos o FIES até hoje. Se não fosse esse programa, nós não teríamos conseguido.”

À TRIBUNA, Zamora esclareceu que o documento recebido não contém um pedido explícito de boicote. Segundo ele, a orientação para prejudicar os citados aparece nas conversas dos grupos em que a relação é compartilhada. “A lista em si, ela tem a inscrição ESQUERDA CM e abaixo só tem os nomes mesmo.”

O advogado afirmou ter recebido duas versões. Naquela em que aparece seu nome, contou 24 pessoas e empresas. Sobre a outra, estimou entre 40 e 50 nomes. Ele também questionou a classificação política atribuída aos citados: “Tem várias pessoas e empresas dessa lista aí que diz que nem falou nada de política”. A origem da lista e seu idealizador são desconhecidos por enquanto.

No vídeo publicado no Instagram (@zamorasilvio), Zamora contou que considerou três caminhos: recorrer à Justiça para buscar a identificação dos responsáveis, permanecer em silêncio por receio dos prejuízos ou enfrentar publicamente a situação. Escolheu o terceiro.

Ao explicar sua decisão, fez uma crítica ao candidato apoiado pelas pessoas às quais atribui a iniciativa. “O que eu fiz não foi nada contra a direita em si, e sim contra o candidato ‘podre’ que eles, infelizmente, escolheram.”

O advogado declarou voto em Lula, rejeitou o rótulo de petista e contestou a tentativa de transformar sua escolha eleitoral em motivo para atingir o escritório. Disse ainda que sua resposta provocou um efeito diferente daquele que atribui aos autores da lista.

Segundo ele, após a publicação de um primeiro vídeo, o número de seguidores triplicou em um dia no Instagram, no TikTok e no Facebook. Também relatou centenas de pedidos de amizade no Facebook e mais mensagens do que conseguia responder. Na entrevista, informou que um dos vídeos ultrapassou um milhão de visualizações e que seu perfil somou cerca de três milhões em 30 dias. Os números são os apresentados pelo advogado. “Ou seja, não deu muito certo essa estratégia comigo”, afirmou.

Entre as mensagens de apoio, disse ter recebido manifestações de pessoas de diferentes posições políticas. “Gente de esquerda e muitos de direita se apressaram em dizer que não concordam com isso.” Para Zamora, essa reação indica que os responsáveis pela iniciativa não representam a maioria da direita.

O advogado contou que acrescentou um texto à lista e mandou emoldurá-la. Ao mostrar o documento no vídeo, informou ter coberto os nomes de terceiros. O quadro, afirmou, permanecerá no escritório enquanto ele viver, à vista dos clientes e de quem entrar no local. “Está impressa, meus clientes vão chegar, vão ver ela aqui.” Ao explicar que pretende guardar o documento, fez uma de suas críticas mais incisivas ao bolsonarismo. “Imaginou os netos estudando o movimento no futuro e perguntando se era verdade que as pessoas viveram um transe hipnótico. E aí eu mostrarei a lista para eles, para que eles saibam que o avô deles pensava diferente”, disse. “Espero que fiquem orgulhosos do vovô por ter lutado essa batalha”, complementou.

Para Zamora, a manifestação também trouxe um alerta sobre as consequências para os demais citados. “Mas o problema e o fato não é só sobre mim. A lista tem mais gente, esse que é o problema.” Zamora afirmou ter segurança financeira para enfrentar uma eventual perda de clientes, mas ressaltou que outros comerciantes e profissionais poderiam não estar na mesma condição.

“Graças a Deus, se o escritório fechar amanhã, para mim não muda muita coisa. Nessa lista tem gente que está com o negócio começando, ou se equilibrando com as contas e depende dele para sobreviver.”

À TRIBUNA, explicou que decidiu usar os vídeos para conscientizar as pessoas sobre os efeitos desse tipo de iniciativa. Em sua avaliação, incentivar consumidores a deixar de comprar em determinado estabelecimento por divergência política pode agravar dificuldades financeiras e comprometer a renda de quem depende dele.

“Não estou ligando se vai vir cliente ou se não vai vir, não é esse o meu alvo agora, é apenas conscientizar realmente”, afirmou ao defender que sua atuação profissional seja avaliada pelos resultados. “Se quer um advogado de direita, radical, tchau”.

Apesar das críticas, Zamora distinguiu o bolsonarismo da direita com a qual considera possível dialogar. Defendeu a convivência entre posições diferentes e rejeitou o extremismo de ambos os lados. “É hora de a gente se unir e tchau pro bolsonarismo, na minha opinião.”

História de vida

Zamora deixou a escola depois da oitava série para ajudar o pai, que arrendava terras com familiares. Após servir ao Exército em Brasília, voltou, casou-se e passou a trabalhar em sociedade com o pai e o cunhado.

A atividade agrícola proporcionou à família uma situação financeira confortável, até as secas de 2004 e 2005. “Fiquei devendo mais do que eu tinha”, recordou. Segundo seu relato, ele e o cunhado perderam tudo, enquanto o pai conseguiu preservar parte dos recursos.

Em 2009, decidiu retomar os estudos. Conta que fez o Enem sem conhecer bem o funcionamento da prova e, com a nota obtida, conseguiu a certificação do ensino médio. Entre as possibilidades de graduação, escolheu Direito no Integrado: além do interesse pela área, o curso noturno permitia continuar trabalhando durante o dia.

Ainda na graduação, começou a trabalhar com um professor e, posteriormente, abriu o próprio escritório. Hoje atua na área cível. Também teve uma passagem pela política: foi candidato a prefeito de Farol em 2008.

Ao relacionar sua trajetória à defesa do acesso à educação ele afirmou: “Por isso que eu uso a minha voz para defender as pessoas da favela, as pessoas pobres que muitas vezes não têm a oportunidade de os filhos estudarem”.

O advogado ainda orientou às pessoas de direita contrárias ao boicote que preservassem as mensagens recebidas. “Tire prints desses grupos de extremistas aí e nos mandem. É a única maneira de evitar que isso se repita.” Ele recomendou também que pessoas e empresas citadas procurem orientação jurídica para avaliar possíveis medidas e buscar a identificação dos responsáveis pela elaboração e circulação das listas.