Obra usa morte para discutir a vida

Um solo de 60 minutos marca o novo espetáculo da companhia verve de dança. Na obra o ator e bailarino Valdir Rocha mistura dança contemporânea e teatro físico para traçar uma poesia lírica sobre a morte. O cenário é típico de um velório. O caixão está presente. Mas longe de ser um limitador, ele ajuda a compor portais, bancos e até mesmo um barco. A multiplicidade dos objetos é uma das característica da companhia.

A gente adora morte, brinca o diretor da companhia Fernando Nunes. Ele explica que, apesar da morte ser natural e estar presente em todos as grandes obras pouco se discute sobre ela. É um tema que já vem fazendo parte dos nossos projetos. Todo trabalho nosso tem uma coisa tocante sobre a morte, mas nada exclusivo sobre ela, comenta.

A solidão que acompanha a morte foi uma realidade para o interprete durante a produção. Esse espetáculo a gente fez a três e por conta de transferências os outros dois foram embora e acabei ficando sozinho. O que é bacana, porque a morte é uma coisa da vida, mas é pessoal. Não existe morte coletiva e o monólogo reforça isso, comenta.

A obra não é linear, ela é construída de fragmentos, o que segundo seus criadores, exige um pouco mais da plateia. Nessa obra fica claro que pessoas religiosas ou não conseguem se adaptar e completar o conteúdo. É como olhar uma pintura. Ela não está dita ali, ela exige mais. Essa obra precisa do olhar do observador. Não é o que eu quero dizer, mas sim o que a obra te diz, acredita Nunes.

O contraste entre tristeza e humor está presente na obra, assim como nas memórias usadas pelo ator e bailarino para compor a peça. Tenho alguns contrastes de memórias de velório, coisas de infância mesmo. Na sala em que o corpo está sendo velado, estavam chorando e ao lado pessoas bebendo e conversando. Encontrando parentes que há muito não viam. Então acho que você consegue produzir humor na comédia e drama no humor.

No cenário, três caixões se mantém e criam dúvida em quem assiste a obra

Valorização da vida

O diretor da companhia coloca que a visão da morte nesse espetáculo vai de encontro ao que usavam até então. Nesse tema a gente fez o inverso. Nós falávamos bastante da vida e usávamos a morte. Agora a gente usa a morte para falar da vida. Mais do que derrubar conceitos previamente estabelecidos, eles acreditam que a escolha da morte como tema deu-se em razão da pessoa colocar-se mais vivo frente à morte. Você essencializa as coisas quando está perto da finitude, até os laços com as pessoas mudam, acrescenta Rocha. O diretor ainda lembrou que curiosamente uma perda fez com que o trabalho fosse repensado. A gente teve de dar uma parada no processo durante três meses e isso fortaleceu a obra.

Desafio de produzir um solo

Segundo o diretor, a produção de um solo está entre os trabalhos mais difíceis para qualquer companhia. Isso é uma coisa rara de se fazer, ainda mais dança. Mas montar esse espetáculo não é uma pretensão da companhia. A verve tem 16 anos, e é um processo natural de maturidade. O Valdir está há muitos anos então foi também uma afinidade entre a direção e o interprete

Todo o processo de criação durou dois anos. Mas foi um tempo nosso. A gente praticava de ensaio a ensaio. Passo a passo. Sem aquele rigor que tinha a companhia no formato gigante, ressalta Nunes. O intérprete acredita que esse foi o tempo necessário para que a obra conseguisse amadurecer. É como fazer vinho, não pode ter pressa. A gente via a obra com outro olhar.

Assim como o espetáculo anterior, ‘Não me espere para jantar’ marca o novo estilo da companhia, que deixou as grandes produções. A verve deu uma parada com o formato grande para um formato mais compacto de solos. As condições econômicas e a relação no Brasil, fora do Brasil mudaram. A gente teve de se adaptar, diz o diretor.

Além da apresentação de domingo, às 20 horas no Teatro, o espetáculo será levado para Maringá no dia 29 de março, onde participará de um evento no teatro da Universidade Estadual de Maringá (UEM).