Indígenas de uma aldeia na comunidade do Barreiro das Frutas, distante 12 quilômetros de Campo Mourão, denunciaram ontem à TRIBUNA,um suposto caso de envenenamento a animais do povoado. De acordo com o cacique, Emiliano Tupã, cerca de 50 galinhas, inúmeros pássaros silvestres – Bem-te-vis, Sanhaços, João de Barro pombas do ar-, e até um cachorro morreram ao ingerir veneno. Eles acusam um produtor rural de ter cometido a barbárie. Segundo Tupã, o veneno, misturado à ração, foi semeado na divisa da aldeia, demarcada apenas por uma cerca de arme farpado. O local, segundo ele, é também frenquentado por crianças que brincam na área.
Tupã comentou que as galinhas faziam parte do cardápio dos moradores da aldeia. Ou seja, servia de alimentos. Segundo ele, como o cheiro de veneno era muito forte, uma das famílias teve de deixar o local temendo risco de intoxicação. Os animais mortos e a ração envenenada, o cacique enterrou para evitar novas contaminações. Queria entender porque ele fez isso. Não o prejudicamos em nada, jamais tivemos desentendimento com ele. As nossas crianças também não mexeram em nada que é dele, comentou Tupã, inconformado com a situação. Ele avisou que denunciará o caso no Ministério Público Federal e no Instituto Ambiental do Paraná (IAP) da cidade. O cacique recolheu uma pequena quantidade da ração envenenada para análise.
A aldeia foi instalada na comunidade há cerca de um ano. Segundo informações, aproximadamente 15 indígenas moram no local. De acordo com o professor do povoado, Eder da Silva, que mora próximo ao local onde o veneno foi encontrado, a ração contaminada foi espalhada na propriedade na terça-feira de manhã. Segundo ele, o cheiro do produto era muito forte. Silva disse à reportagem que os animais apareceram mortos de repente. Cheguei a fazer remédio achando que era doença. Mas todas as galinhas arruinaram muito rápido, disse.
Silva mora no local com a esposa e três filhos. Ele informou que suas crianças geralmente costumam brincar no local. Por sorte eles não ingeriram o veneno. Poderia ter acontecido uma tragédia, disse. O professor disse que outros produtores, antes de pulverizar as lavouras que fazem divisa com a aldeia, procuram o cacique para alertar sobre alguns cuidados. Neste caso não teve diálogo. Poderia muito bem ter nos avisado para prendermos os animais. É estranho o fato de a ração estar envenenada, questionou, acrescentando que sua família passou mal devido ao forte cheiro do veneno. Meus filhos ficaram todos com diarréia. Eu e minha esposa sentimos fortes dores de cabeça, lamentou, descartando a possibilidade de as galinhas terem morrido por alguma doença. Os animais estavam todos saudáveis. Pelos sintomas e o cheiro forte do veneno elas morreram intoxicadas, completou.
Outro lado
A reportagem conversou com o produtor rural, Rodão Gonçalves, acusado pelos indígenas do envenenamento. Ele é o proprietário do lote de terra onde o veneno foi encontrado. Gonçalves explicou que semeou iscas granuladas para formigas saúva em sua propriedade. O produtor falou que misturou o veneno à ração para atrair os insetos. Se eles têm criações porque não fecham como os outros, questionou.
Gonçalves não soube informar o nome do veneno que utilizou. Disse apenas que as iscas são semelhantes às distribuídas pela prefeitura a pequenos agricultores. Em hipótese alguma a minha intenção foi matar os animais deles. Eu não tenho culpa se eles soltam galinhas nas terras dos outros, esbravejou, acrescentando que todos os anos realiza o mesmo procedimento para combater as formigas. Ele disse que tem a propriedade no local há 10 anos. O produtor reclamou ainda que os indígenas prejudicaram sua propriedade. Eles derrubam tudo. Já despregaram minha cerca para fazer passagem. Tive de falar ao cacique que iria instalar cerca elétrica com 110 volts porque não tenho a máquina para reduzir a voltagem. Só depois disso eles tomaram uma atitude, completou.
Polícia diz que tomará providências
A reportagem entrou em contato com a Polícia Ambiental Força Verde de Campo Mourão. De acordo com o soldado Cloude Wilson dos Santos, a polícia ainda não tinha conhecimento do caso. No entanto, Santos disse que a Força Verde comparecerá hoje ao local para tomar as providências cabíveis. Segundo ele, se ficar comprovado que as mortes dos animais foram causadas por envenenamento, o caso pode ser configurado como crime ambiental.
Santos informou a ração contaminada e um dos animais mortos serão encaminhados para uma análise detalhada. De qualquer forma já está configurado o manuseio inadequado do veneno. Neste caso é preciso orientação de um profissional, explicou o soldado. Precisamos comprovar agora se a causa da morte deste animais está correlacionada a utilização do veneno ou não, acrescentou.