Atrás do sonho, Manuel encontrou CM

A história do professor nicaraguense Manuel Salvador Vicente Plata Oviedo, 49, no Brasil, começou exatamente no dia 20 de fevereiro de 1.987, quando desembarcou em Guarulhos, no interior de São Paulo. De lá, ele seguiu rumo à Campinas, para fazer mestrado na área de tecnologia de alimentos na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Pouco tempo depois já era doutor na área. Um feito para poucos. A especialização era um de seus maiores sonhos. Desde que chegou ao Brasil, passou por inúmeras cidades, em diferentes estados. Mas, em busca do sonho encontrou Campo Mourão. É aqui que ele vive há seis anos com a família.

Manuel é um homem bastante culto. Carismático. Gente boa de verdade. Ele literalmente abriu a porta de sua casa para a reportagem da TRIBUNA. Em pouco mais de meia hora de conversa, revelou um hobby inusitado: fabrica cerveja em casa nas horas vagas. Além de fabricante é degustador. Fabrica também hidromel. A bebida é praticamente a base de mel de abelha e água. Para ele, todo mundo tem que ter um hobby. Torna a vida mais feliz.

Manuel nasceu na cidade de León, na costa oeste da Nicarágua. Ele teve outros nove irmãos. Sua infância foi normal, ou seja, de brincadeiras. O pai, após trabalhar por alguns anos em uma empresa que exportava algodão, se tornou pequeno agricultor. Cultivava algodão. Contudo, como o mercado decaiu abriu mão da lavoura. Passou a trabalhar de taxista. Manuel conta que somente o pai ainda é vivo. A mãe faleceu já há algum tempo.

Quando deixou a Nicarágua, recorda o professor, o país enfrentava um momento conturbado. A nação vivia uma guerra civil, mundialmente conhecida como os contra apoiados pelo governo norte americano contra o regime militar revolucionário. O movimento de agressão norte americana iniciou em 1981 e terminou em 1990. Quando eu saí de lá, em 87, a situação era muito difícil. Todo o país estava voltado para uma situação de guerra. Faltava de tudo. E os salários, comparados ao de outros países eram baixíssimos, lembrou.

Manuel é formado em química na Universidade Nacional da Nicarágua. Quando chegou ao Brasil pela primeira vez jamais imaginou que ficaria definitivamente no país. Segundo ele, o plano era estudar e retornar à terra de origem. Com mestrado concluído ele retornou à terra natal em 1991. Porém, um ano depois, voltou novamente ao Brasil para continuar o doutorado em Tecnologia de Alimentos, também na Unicamp. Não tinha planos de vir para ficar. Tudo aconteceu, disse. No país de origem, ele dava aulas na mesma faculdade em que se formou. A situação econômica [na Nicarágua] estava muito caótica. Achei melhor continuar a estudar, frisou. O meu sonho no Brasil era fazer o mestrado e voltar ao país de origem para dar um retorno social. Não me considero como refugiado econômico ou político, avaliou.

Manuel lembra que a primeira vez que colocou os pés em solo brasileiro levou um choque. Imagina um país em situação de guerra onde você se acostuma à situação de escassez, e de repente chega a uma sociedade de consumo. No mínimo impactou, enfatizou. Ele recorda que durante a guerra econômica no país, havia até mesmo racionamento de alimentos. Cada família tinha uma cota básica.

A chegada à Campo Mourão

A chegada de Manuel a Campo Mourão aconteceu somente após cerca de 20 anos depois de ele ter chego ao Brasil. O nicaraguense pisou em solo mourãoense em 2007, após passar em um concurso para professor da UTFPR. Ele veio de Videira (SC). Lá trabalhava em uma fundação educacional. Na UTFPR, Manuel é professor na área de tecnologia de alimentos. Uma profissão, que segundo ele, carrega no coração.

Até chegar a Campo Mourão, Manuel passou por inúmeros lugares. Sua trajetória foi longa. Trabalhou em uma empresa multinacional de São Paulo, na área de amidos. Pouco mais de um ano depois, mudou se para o interior do estado. Em 2000 foi para o Espírito Santo, onde trabalhou em uma empresa de processamento de frutas. Sua vida como professor universitário iniciou em 2002, na Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia. Em seguida se mudou para Videira (SC), onde morou por cerca de quatro anos. Posteriormente passou no concurso em Campo Mourão. Gostei muito da cidade, falou.

Hoje ele vive com a esposa Sônia. Tem três filhos e um neto. Sua história com Sônia é, aliás, n mínimo curiosa. Ele a conheceu em uma clínica de fisioterapia. Ambos faziam tratamento do joelho. É casado com ela há 12 anos.

De modo geral, Manuel disse que se acostumou facilmente aos costumes do Brasil. O Brasil é um país bom para morar. É multirracial, pluricultural e polifacetico. Acho que essa é uma das coisas muito boas que o Brasil tem, disse. Voltar ao país de origem ele até pode voltar. Porém, somente quando sair a aposentadoria, concluiu.