Bullying ‘diz presente’ na escola e ameaça educação

O que no passado era considerada uma simples brincadeira entre crianças e adolescentes no ambiente escolar, tornou-se assunto sério entre profissionais de educação, pais e psicólogos. O bullying, termo em inglês que foi adotado por especialistas brasileiros para qualificar comportamentos agressivos, praticados tanto por meninos quanto por meninas, é um problema que reflete diretamente na evasão escolar, queda no rendimento, e muitas vezes tendo como consequência a violência física. Por esses e outros motivos, o primeiro passo da escola é estar sempre vigilante e preparada para detectar o problema antes que ele tome dimensões mais graves.

Em Campo Mourão, pelo menos 30% das denúncias que chegam ao Núcleo Regional de Educação (NRE), estão relacionadas ao bullying. Para a ouvidora do NRE, Flavia Praxedes Santili, nenhuma escola de Campo Mourão está livre do problema. Toda escola tem bullying, isso é fato. Os pais nos procuram, pedindo a transferência do aluno para outras escolas, mas não querem justificar  o motivo real, já pelo temor das ameaças que o filho recebeu, diz Flavia. No entanto, o que surpreende, segundo ela são os casos de bullying de professor para aluno, quando o educador menospreza o estudante e o ‘humilha’ psicologicamente com palavras do tipo ‘você não sabe nada, não vai a lugar nenhum, é um idiota’.

Alguns até chamam os alunos por apelidos. Isso causa constrangimento e humilhação, perante toda a classe. Esse tipo de denúncia os pais já levam direto para o Núcleo de Educação, alegando que a direção da escola não vai dar nenhuma advertência ao seu professor, afirma a ouvidora o NRE. Esse tipo de denúncia, a ouvidoria leva até a direção da escola e, se necessário, o professor é chamado ao núcleo. Primeiro vamos ouvir o professor e saber o que realmente aconteceu. Se for entendido que houve bullying, e em caso de reincidência, abrimos sindicância, chamamos os pais e dependendo da situação, poderá resultar até em processo criminal. Lógico que em muitos casos o professor quer apenas ajudar, e ao chamar a atenção do aluno ele não entende e diz que foi humilhado. Já tivemos casos em que o restante da classe sai em defesa do professor, porque fica claro que não houve nenhum tipo de agressividade, diz ela.

Para o psicólogo Fabrício Rodrigues de Moura, o primeiro passo da escola é identificar o que está acontecendo e depois tornar os alunos conscientes do comportamento inadequado que estão tendo no ambiente escolar. Na verdade a escola deveria ser um espaço coletivo, mas está tornando-se um lugar de competição entre as crianças e adolescentes. Sabemos que na adolescência, o comportamento é mesmo de agitação e de muita bagunça entre eles. Mas é preciso a direção da escola ficar alerta para entender quando as coisas passam do normal. Quando esse comportamento vira algo intencional, com o propósito de denegrir a imagem de outro colega ou difamar, se torna preocupante, orienta.

Moura explica que a escola deve assumir o bullying como um problema e tentar a solução com os envolvidos. Não havendo harmonia, e em casos extremos, a direção deve acionar o Conselho Tutelar, Secretaria da Educação ou Núcleo de Educação. O bullying é uma realidade em toda escola e precisa ser encarado como tal. Nossas crianças e adolescentes estão vivendo em um mundo muito competitivo, consumista, onde um quer ter mais poder do que o outro. Isso tudo afeta a própria coletividade que eles deveriam viver na escola. Em casa os pais devem estar sempre observando o comportamento dos filhos, para entender quando eles estão sendo vítimas ou mesmo praticantes do bullying.

Galera da Paz no combate ao bullying

A professora de língua portuguesa Janislei Dallarosa Silva, com especialização em Psicopedagogia e Gestão, é uma das mais experientes no trabalho de combate ao bullying em Campo Mourão. Há cinco anos ela ‘debruçou-se’ sobre o tema e com apoio das duas escolas onde trabalha, desenvolveu pesquisas relacionadas a esse problema, que está cada vez mais presente no ambiente escolar. No Colégio Ivone Soares Castanharo, Janislei conquistou a confiança da garotada e formou um grupo de apoio denominado Galera da Paz. São adolescentes também preocupados com o bullying e que não admitem nenhum tipo de brincadeira de ‘mau gosto’ com os demais estudantes, independentes se são amigos próximos ou não.

É um grupinho de alunos bem comprometido, que de forma voluntária, vem ao colégio no contraturno escolar para ajudar. Não recebem nota por isso, mas abraçaram a causa. Eles andam pelo pátio e quando percebem que alguém está de marcação com o outro, já se aproximam e chamam a atenção mesmo. São grandes proliferadores dessa ação, que tanto ajuda na escola, comemora a professora.

Além do Ivone Castanharo, localizado no jardim Tropical, Janislei também é professora no Colégio Vicentino Santa Cruz, onde recebe todo o apoio da direção para desenvolver ações de combate ao bullying. Tanto a irmã Maria Geralda, diretora do Santa Cruz, quanto o Joseval, diretor do Ivone Castanharo, confiam no trabalho que faço e isso faz toda a diferença, agradece.

Pesquisa

Aproveitando a oportunidade de lecionar em escolas particular e pública, a professora Janislei desenvolveu uma pesquisa sobre o bullying, em que pôde comparar a dimensão do problema nos dois ambientes de ensino. Curiosamente, a pesquisa não apontou diferenças. Na verdade montei um questionário, em que busquei saber quem mais agredia e quem não agredia, no Ivone Castanharo. Já no Santa Cruz, a pesquisa questionava os estudantes em que ambiente virtual ocorria o bullying. Fizemos um paralelo entre as escolas e apesar de o ambiente ser tão diferente, o resultado foi praticamente o mesmo, revelou.

Segundo ela, pesquisas de outros educadores, também apontam resultados semelhantes entre escolas particulares e públicas. Isso nos deixa de certa forma mais tranqüilos, porque percebe-se que são poucos os alunos agressivos. Geralmente são crianças que repetem aquilo que estão presenciando em casa, o que é muito triste, pois vão estar levando esse comportamento para a fase adulta, lamenta. Experiente no assunto, Janislei garante que para minimizar o bullying na escola é preciso muita determinação e nunca desanimar. Para combater o bullying, não é necessário fazer um evento grande. É o chamado trabalho de formiguinha, o qual exige esforço diário, onde você chega a cansar de repetir a mesma coisa.

Bullying, não! Nossa Opção é pela paz

O Colégio Vicentino Santa Cruz realiza há seis anos, projetos de combate ao bullying. Com a  campanha Bullying, não! Nossa opção é pela paz, foram realizadas  palestras internas para educadores, alunos e pais de alunos, assim como para outras instituições de ensino da rede pública. E mais uma vez, a instituição inova em suas ações contra o fenômeno, com a criação da Comissão antibullying, composta por educadores, com objetivo principal de orientar e direcionar ações positivas voltadas ao combate do fenômeno mundialmente conhecido como bullying.

Projetos inovadores, com propostas direcionadas à qualidade do ambiente escolar, são constantes no Colégio Vicentino Santa Cruz.