Em busca de um sonho

Há 30 anos, o sonho de se tornar Engenheiro Químico fez com que aos 17 anos, Miguel Rodriguez deixasse a família e amigos no Panamá – país da América Central – e viesse ao Brasil, mais especificamente a Maringá. Com o golpe militar de 1987, o então recém formado, decidiu permanecer no Brasil. Apesar de já ser casado e ter dois filhos, foi só depois de três anos que o documento de permanência foi liberado. Alguns anos depois, foi novamente o sonho da profissão que o trouxe a Campo Mourão. Desde então, ele tem mostrado aos brasileiros que o Panamá tem mais do que o Canal construído pelos interesses norte-americanos.

Aos 15 anos, Miguel definiu a profissão. Adorava química, mas não pensava em ser professor. Sempre era atraído pelo ramo industrial e viu na Engenharia Química a chance de unir as duas paixões. O único problema é que o curso não existia em seu país natal. Eu decidi que queria fazer, então a opção era sair. Ele estudou oportunidades no México, Estados Unidos, Argentina ou mesmo a Europa. Mas minha família é muito humilde e era um sonho. Eu decidi que entre os 15 e 18, que seria a época que me formaria no segundo grau, eu iria atrás, diz.

De tanto buscar, o rapaz descobriu que o governo brasileiro tinha um convênio com o Panamá e que ele poderia estudar de graça em uma universidade brasileira, desde que conseguisse manter-se financeiramente. Junto aos órgãos governamentais panamenhos, ele conseguiu uma bolsa em forma de crédito educativo. Isso foi o que ajudou a me manter nos primeiros três anos aqui. Ainda na faculdade, conheceu a primeira esposa e teve dois filhos, Jader (26 anos) e Paulo (27 anos).

No final de 1987, ano em que concluía a graduação, um golpe militar deu o poder ao general Manuel Noriega. Em represália, os Estados Unidos bloquearam economicamente o Panamá. Houve muito desemprego e violência naquela época. Decidi que ir com a minha família, ainda mais com dois meninos pequenos, era muito arriscado. Se fosse só eu e a minha mulher na época tudo bem, seriamos dois adultos se virando em meio a um pandemônio, afirma. Um ano depois, uma invasão militar norte-americana, derrubou o general e empossou Guillermo Endara como presidente. Mas foi somente em 1993 que a situação política e econômica do país foi normalizada.

Após a decisão de permanecer em solo brasileiro, Miguel buscou os documentos que garantissem sua permanência e a possibilidade de trabalho formal. Apesar de ter filhos aqui demorou quase três anos. Nesse intervalo eu tive de me virar e não foi fácil não. Minha esposa parou de estudar para trabalhar e conseguimos, apesar de ser uma época bem complicada financeiramente. Com a crise, o engenheiro também não pode contar com o apoio da família. Antes eles já tinham dificuldades, mas por causa da crise foi pior, os salários reduziram pela metade e cada um tinha de fazer o trabalho de três que haviam sido demitidos, recorda.

Quando o problema se resolveu por lá, Miguel já havia se estabelecido no Brasil, e estava cursando o mestrado. Então acabei ficando. Dois anos depois, o resultado do concurso prestado no Centro Federal de Educação Tecnológica, o antigo Cefet – hoje Universidade Tecnológica Federal do Paraná – o trouxe a Campo Mourão, de onde só sai para passeios ou estudos.

Pai de seis filhos, Gabriele, Samara, Jader, Paulo, Jonas e Giovana, aos 48 anos Miguel já é avô. O filho mais velho teve dois filhos, Mateus e Isadora.

Superação de problemas   

Miguel contou que o Panamá conseguiu superar os anos difíceis e hoje cresce a invejáveis 6,9% ao ano. É uma taxa muito boa e isso diminuiu um pouco as discrepâncias de pobreza que tinha. Minha família continua humilde, mas os grandes problemas que enfrentamos quando adolescentes não existem mais. Todas as necessidades básicas são cobertas e não falta emprego. É um país extremamente moderno, a construção, a arquitetura, muitas rodovias com três vias que vão e três que voltam. A estrutura é muito boa.

Beleza dos contrastes

Segundo ele, o país que adotou como seu não se compara a nenhum outro, tanto em riqueza geográfica, como da diversidade cultural. Às vezes a gente não valoriza o próprio lugar. Muitas gente não consegue reconhecer a beleza, mas o Brasil é lindo. Tem contrastes que você não encontra em outros países. Aqui a migração criou contrastes bem diferentes. Conheço Recife, Salvador, Minas Gerais, Santa Catarina e o  interior de São Paulo, e cada lugar tem uma coisa diferente.

Apesar do sotaque espanhol ainda ser claro depois de 30 anos, Miguel recorda que nos anos em que passou no Rio de Janeiro, foi alvo de muitas brincadeiras pelo ‘jeitinho’ paranaense de falar. Os cariocas tiravam sarro porque diziam que eu falava com sotaque de interior. Diziam que eu tinha sotaque de gringo, mas com um jeito de paranaense de interior. Uma londrinense dividia a turma com Miguel e tendo o comparativo era fácil. Decidiram que eu tinha o sotaque dela somado ao meu. E eu achava isso muito engraçado, lembra. Depois dos três anos no Rio de Janeiro, o engenheiro voltou ao Paraná e concluiu o mestrado e doutorado em Maringá

Comida para os porcos?

De acordo com o engenheiro, a alimentação de uma forma geral não é tão diferente, mas tem alguns pontos característicos. No Brasil, tomo mundo come feijão, faz parte da dieta. No Panamá é de vez em quando e não é sempre o mesmo tipo de feijão. Você come leguminosas, mas com uma frequência menor. Então eu sofri quando vim para cá, me dava azia porque não era acostumado. Agora eu não como se não tiver feijão, acabei incorporando isso ao meu dia a dia.

O mais curioso, no entanto, foi quando visitou uma propriedade rural em Santa Catarina. Desde que tinha vindo para o Brasil, não havia visto plantações de Guando, leguminosa típica da América Central. Eu nunca vi comerem Guandu aqui, mas lá, a Nestlé até comercializa enlatado. Chega a ser engraçado, conta ele lembrando que comentou admirado com o amigo. Ele me perguntou porque do espanto e eu expliquei que nos adoramos fazer frito e misturado com arroz. Na hora ele começou a rir e explicou que a plantação é para alimentar os porcos.

Distância da família, barreira que não diminui com tempo      

Desde que veio estudar, ele passou mais de 20 anos sem vê-los. Eu comecei a trabalhar e tive filhos, aí a prioridade passou a ser cuidar deles. Quando a sogra teve um problema grave de saúde, o incentivo para que houvesse um reencontro partiu da família. Minha mulher que me falou que sua mãe poderia ir embora a qualquer hora, o mesmo com meus pais. Apesar da situação ser muito difícil, nós decidimos trazê-los. Isso foi há quatro anos.

Os pais vieram até São Paulo e lá, Miguel e a mulher os buscaram de carro. Ao entrarem no Paraná, a beleza e a extensão das lavouras de soja os encantou. No Panamá, existem as áreas planas, mas como é um país estreito, não existem fazendas a perder de vista. De olhar no horizonte e as máquinas estarem lá. Para eles foi uma coisa fora do comum.

O engenheiro se emociona ao contar a alegria dos pais, que não conseguiram completar o primário, em ver o filho terminar o doutorado. Eles sabem escrever e ler, mas a luta deles sempre foi buscar um futuro melhor. Minha mãe diz que sempre sente orgulho em relação a mim e minha irmã que se formou lá. Brinco com meus filhos que eles precisam estudar e no mínimo chegar àquilo que eu cheguei. Eu ter um doutorado, para minha mãe é um trunfo.

O ‘Emparedado’

Com o tempo o Espanhol, língua oficial do Panamá, deixou de fazer parte do cotidiano de Miguel. Com a vinda dos pais, foi preciso paciência para que tudo fosse compreendido. Eu penso e falo em português, mesmo mantendo o sotaque. Quando meus pais vieram, eles tiveram dificuldade de me entender. E até conseguir começar a falar o espanhol demorou cerca de 10 dias.

Um dos casos que marcou o engenheiro foi logo na chegada ao aeroporto. Nos queríamos lanchar e perguntei ao meu pai o que ele queria comer e ele me disse que queria um emparedado. A vontade de agradar o pai era grande, mas foi preciso a ajuda da mãe para que ele entendesse o que era a comida que o pai desejava. Minha mãe foi prática: Um pão, outro pão e no meio jamón e queso [presunto e queijo]. Ele queria um sanduiche, recorda rindo.