Para abrir novas vagas destinadas a sepultamentos no cemitério São Judas Tadeu, em Campo Mourão, a prefeitura está fazendo um levantamento de túmulos abandonados para remoção dos ossos. Segundo a administração local, mais de mil sepulturas estão em completo estado de abandono. Pelo menos quinhentos mortos deverão ser despejados do campo santo nos próximos dias. Os restos mortais serão transferidos para ossários. Se por um lado o único cemitério está lotado, por outro, está em fase de acabamento na cidade, um novo campo santo. Trata-se de um espaço particular do Prever. A obra está sendo construída no jardim Cidade Nova. Porém, há indícios que, para funcionar, terá que passar por uma série de novas regulamentações antes mesmo do término das obras.
No início da construção, há mais de dois anos, existia uma lei municipal impedindo a operação de cemitérios particulares no município. No entanto, na época, não se sabe por qual motivo, o documento passou despercebido. O caso foi levantado recentemente pela Câmara de Vereadores, que elaborou a lei complementar 021/2011, com uma série de regras. Entre as exigências da nova lei, para a implantação de novos cemitérios, deverá ser obedecida a distância mínima de mil metros da divisa de bairros ou loteamentos já existentes na data da publicação do dispositivo. Na hipótese da implantação de cemitério em distância inferior à estabelecida, torna obrigatória a realização de plebiscito entre os moradores dos bairros circunvizinhos. De acordo com a lei, também em cada cemitério particular deverá ser reservado 10% do total de sepulturas para enterros gratuitos de indigentes encaminhados pela administração municipal.
De acordo com o administrador do cemitério, Paulo Rogério Souza Leite, 250 túmulos deteriorados já foram catalogados. Ele explicou que a lista das sepulturas abandonadas será divulgada no órgão oficial do município. Os familiares terão até 90 dias para fazerem a manutenção. As famílias serão convocadas para regularizar a situação dentro do que o título de concessão exige ou permite ao munícipe, avisou. Caso as pessoas não compareçam no prazo para regularizar a situação, a prefeitura reaverá o terreno.
Segundo Leite, a medida aumentará o tempo de vida útil do cemitério em pelo menos mais um ano e meio. De acordo com ele, o local está atualmente superlotado. Segundo informações, há espaço para apenas pouco mais de 170 sepultamentos no campo santo. Ou seja, levando em consideração que em Campo Mourão morre uma média de 720 pessoas por ano – 60 por mês-, o cemitério está com os dias de vida contados. De acordo com registros, mais de 19 mil enterros foram feitos no local, desde a sua existência, em meados de 58. Estamos com espaço bem reduzido. Até as ruas já foram utilizadas, informou.
Outro problema dos túmulos abandonados, segundo Leite, é que se tornam também depósitos de lixo a céu aberto. O que pode servir para proliferação do mosquito da dengue. Hoje estamos adotando só o sistema de carneiras, afirmou. O administrador acredita que existem túmulos com até mais de 40 anos de abandono. O levantamento começou no início de abril. Gostaria de orientar a população que quem tem alguma pendência que nos procure para regularizar a situação antes que seja notificado, completou.
A reportagem tentou contato com o presidente do Legislativo, o vereador Eraldo Teodoro de Oliveira (PMDB), para comentar sobre a lei complementar para funcionamento de cemitérios particulares no município, mas não obteve retorno. Segundo informações ele está viajando. Também tentou-se ouvir o procurador jurídico da Câmara Legislativa, Walter Francisco da Silva. Mas ele preferiu não comentar o assunto.
700 ossários deverão ser construídos
De acordo com o secretário de Obras de Campo Mourão, José Marin, como há expectativa de muitos túmulos abandonados, pelo menos 700 ossários deverão ser construídos no cemitério para guardar os restos mortais. Vamos retirar os restos mortais que estão depositados nestas sepulturas abandonadas e colocá-los em recipientes adequados, falou.
O secretário afirmou que a remoção dos túmulos abandonados melhorará o aspecto visual do cemitério. Sobre a utilização do estacionamento para construir novas sepulturas, o secretário comentou que no local está sendo priorizada a construção de jazigos. O espaço suporta pelo menos 100 vagas, informou. O estacionamento não é utilizado rotineiramente. Temos um espaço ocioso que estamos aproveitando para abrir novas vagas, concluiu.
O retrato do descaso
Sepulturas em ruínas, muros condenados, carreadores na terra e sujeira para todos os lados. Este é o estarrecedor retrato do São Judas Tadeu. Um dos locais mais visitados da cidade não oferece sequer o mínimo de estrutura aos visitantes.
De acordo informações, pelo menos 80% do cemitério não dispõe de asfalto. Os carreadores com o que resta de malha asfáltica também estão bastante deteriorados. A situação é ainda mais grave onde não tem asfalto. A erosão já começa a formar valetas entre os túmulos. De acordo com os próprios funcionários, quando chove o local fica praticamente intransitável.
A situação levou até mesmo o próprio secretário de Obras, José Marin, a reconhecer que o local não vem recebendo investimentos. Realmente nos últimos anos não foram feitos muitos investimentos pela administração atual nem por outros prefeitos que antecederam o Nelson Tureck, disse. No entanto, segundo o secretário, o que mais enfeia o cemitério, são os túmulos abandonados.