Desde a época em que a mulher não tinha direito ao voto, foram menos de 100 anos. Nesse período, as mudanças foram tão rápidas que hoje o dito ‘sexo frágil’ ocupa praticamente todos os cargos das mais diversas ocupações, ganhando espaço e destaque no mercado de trabalho. Com o comando do volante não foi diferente. Apesar de todo o preconceito que ainda existe envolvendo mulheres e direção, a TRIBUNA ouviu duas personagens que fizeram disso sua profissão. O conselho delas é o mesmo: não tenha medo.
A liberdade que dirigir um ônibus escolar traz é hoje uma das principais vantagens que Vilma Lisik encontra no emprego. Mas há 15 anos, quando começou, o que a levou a deixar o emprego de vendedora foi a curiosidade. Eu estava trabalhando e vi um carro com uma faixa escrita na porta e falei que ia trabalhar com isso ai. Era propaganda de auto escola. Eu estava um pouco cansada do que fazia, mas o principal é que chama a atenção uma mulher dirigindo, pondera.
Decidida, logo começou a formar futuros motoristas e por lá permaneceu até cinco anos atrás, quando foi aprovada em primeiro lugar para o cargo de motorista na prefeitura de Cruzeiro do Oeste. Se no começou havia certo preconceito por parte dos alunos, nos últimos anos, a agenda vivia cheia. Eu tinha muita preferencia depois. Até os homens mesmo queriam fazer aulas comigo. Tanto de ônibus como de carro, evidencia.
Com a boa colocação no emprego público, Vilma pode escolher em que setor trabalharia e a área da saúde a conquistou. O meu sonho era trabalhar como motorista na ambulância. Lá, ela passou praticamente dois anos, enfrentando plantões como a maioria dos profissionais que escolhe a área. Com o casamento, passar as noites fora passou a ser um problema e a funcionária pública pediu transferência para o transporte escolar.
Apesar de trabalhar somente durante o dia, a rotina de trabalho não ficou mais fácil. Vilma entra no trabalho antes do nascer do sol, às cinco horas da manhã. No almoço, intervalo de duas horas e depois, de volta à direção até às 19 horas. O grande tempo que passa atrás do volante acaba gerando dores nas mãos, um pequeno inconveniente segundo ela. Os veículos que estou dirigindo são pesados e a gente não tem a força de um homen, então fico com essas dores. Mas não tenho nenhum desconforto nas costas ou pernas. Precisa de jeitinho e a gente vai levando.
Respeito
Como a única mulher no setor, Vilma poderia ter problemas com as gracinhas, mas isso não acontece. O respeito é muito grande. Nunca tive problema nenhum, eles até falam que no meio deles eu virei homem, brinca. Um dos motivos segundo ela, pode ser que entre os atuais companheiros de trabalho, muitos foram seus alunos na época da autoescola. Pretendo continuar trabalhando com direção. É uma coisa que eu não quero deixar, porque o serviço fechado para mim não é meu estilo. Gosto de sentir a liberdade. Coisa que dentro de um escritório ou indústria não dá. Vilma é casada há quatro anos e apesar de ainda não tem filhos, conta que sua sobrinha, de cinco anos, já demonstra gostar da direção.
Primeira volta aos 13 anos
Aos 13 anos, depois de observar durante semanas o irmão mais velho dirigindo sua primeira moto – uma CTzinha, como ela recorda – Maria de Fátima Rodrigues aproveitou um momento em que ele estava no trabalho e a mãe distraída para dirigir o primeiro veículo. Naquele dia eu peguei a moto escondida e sai andando imitando o que tinha o visto fazer. A bronca depois foi grande, recorda. Hoje motorista de caminhões, Maria de Fátima conta que o gosto começou ainda criança, quando via os irmãos e o pai dirigindo. Meu pai nunca mediu esforços para que eu aprendesse. Eu sentava em seu colo e comandava o volante, conta.
Aos 18 anos, com a primeira habilitação, ela começou a ajudar o irmão que era caminhoneiro em viagens longas. Sempre tive muita confiança na direção, então mesmo sem a carteira D e E [necessárias para caminhão] eu ajudava ele. Me casei e continuei fazendo isso. Quando foram parados por um policial e houve ameaça de multa, Fátima resolveu tirar a carteira e se especializar em direção de cargas perigosas. Nessa época, o irmão adquiriu um bitren.
Há cinco anos, seu registro em carteira é como motorista. Assim como Vilma, durante algum tempo trabalhou em uma autoescola em Cruzeiro do Oeste. Foi lá que lhe foi oferecida a oportunidade de voltar ao comando de caminhões. A usina próxima ao município estava com vagas abertas para mulheres que tivessem interesse em trabalhar como motoristas. Acabou surgindo a curiosidade e com a expectativa de aumento da renda familiar, ela levou a proposta até o marido. Ele me deu a maior força. Por isso que resolvi fazer o teste, achando que não passaria, conta ao recordar a surpresa quando recebeu uma ligação pedindo para levar documentação, pois seria contratada.
Uma ‘coringa’
Quando começou a trabalhar na usina, Fátima assumiu como coringa, que é um funcionário que cobria as linhas dos demais motoristas de folga. A primeira viagem foi em um ônibus articulado. Dentro estavam 140 empregados da Usina. Quando me viram, fui novidade. Eles me olhavam preocupados e eu acabei ficando tensa. No entanto, ao final do trajeto, o medo tinha passado. Todos desciam me parabenizando, dizendo que fui muito bem.
Após um ano nessa função, ela assumiu uma linha fixa. Algumas vezes ficava no percurso do canavial, passando 15 dias ‘puxando cana’. Eu adorei, é gostoso demais você ali na frente, constata. Apesar de ter aprovado a experiência, após as oito horas na usina, ela ainda passa cinco ensinando na autoescola. Com as viagens, essa rotina seria impossível.
Mãe de uma filha de 15 e um filho de 24 anos, ela vive o dilema de praticamente toda mãe moderna: passar menos tempo com os filhos do que gostaria. Hoje, minha filha reclama um pouco. Mas na medida do possível eu estou presente. Nos dias de folga fico em casa com a família.
Hoje ela se sente realizada, tanto na família, como nos empregos na Usina e na Autoescola. Coleciono títulos de melhor instrutora e mais do que isso, ver a confiança que as pessoas colocam em mim faz valer a pena, ressalta. Segundo ela, a única coisa que ainda falta em sua vida, é um diploma universitário, mas essa opção também não está descartada.
Vantagem
Se até pouco tempo o fato de ser mulher era visto como uma desvantagens na hora da contratação, muitas empresas estão preferindo empregá-las. Quando estava dando aula de ônibus, a maioria das mulheres que faziam a carteira eu já encaminhava para o emprego. Sucessores tenho bastante e há vagas também. A principal vantagem é o cuidado com que a mulher zela do veículo. Tem uma usina aqui perto que prefere dar o emprego para a mulher do que para homem. Eles falam que a mulher é mais delicada com o veículo, cuidadosa e mantém mais limpo. E isso é verdade, tudo é mais fácil, completa.
Seu conselho para quem já cogitou a carreira, mas não foi em frente é simples: não tenha medo. Não é um universo masculino, é um universo para todas. Há campo para todo mundo, finaliza.