Seu nome é José Alves Sobrinho. Ele tem 64 anos e um coração enorme. Podemos chamá-lo, sem dúvida, de anjo. Afinal, seu coração se perde em tanta bondade. Ele é um sujeito alegre de espírito. É virtuoso. Seo Zezinho, como é mais conhecido, é a prova viva de que ainda existem pessoas boas nesta sociedade cruel. Onde estiver alguém precisando de socorro, lá estará Zezinho, com sua mão amiga para ajudar.
A vontade em servir o próximo aflorou definitivamente em Zezinho há alguns anos, durante uma excursão ao Vietnã. Na viagem ele resolveu visitar um hospital-casa, onde pessoas doentes de câncer e guerrilheiros eram internados. Ele lembra que no local existiam muitos pacientes mutilados da guerra. Alguns até desejavam logo a chegada da morte para findar o sofrimento. Aquilo me emocionou muito, disse.
No retorno ao Brasil, Zezinho veio com uma certeza no coração: ir ao encontro dos necessitados. Após conversar com um amigo, ele chegou a Casa de Apoio ao Doente de Câncer de Campo Mourão. Lá ele já está há dois anos. É um sujeito mil e uma utilidades. Ou seja, faz o que for preciso. Trabalha de motorista, ajuda na cozinha, e até limpa o chão se necessário. Tudo por um magérrimo salário mínimo. O trabalho meu aqui é por amor ao próximo, resumiu.
Zezinho é soldador profissional e eletricista. Já soldou até navios em uma fábrica do Japão, há cerca de 20 anos. Porém abriu mão de ganhar mais para ajudar os doentes de câncer de Campo Mourão e região. Ele lembra que logo que chegou ao local, de cara restaurou toda a parte elétrica e hidráulica da casa. O imóvel ganhou também nova pintura. Não cobrou um centavo sequer pelo trabalho. Eu acho que nasci com esse dom. Sempre gostei de fazer o bem. Ajudar as pessoas. Eu também já fui ajudado, disse.
Zezinho é filho de família carente. Desde os sete anos já acompanhava o pai na lavoura. Sua vida sempre foi de muito trabalho. Como a família era grande – dez irmãos ao todo-, foi obrigado a trabalhar muito cedo para ajudar em casa. Ele acredita que um dos melhores presentes já ganho durante a infância, talvez seja uma enxada e um chapéu de palha, que ganhou do pai. Era a minha maior alegria. Chegava da escola meio dia e ia pra roça com ele., recordou. Todos os outros irmãos trilharam o mesmo caminho. Hoje os pais já são mortos.
Valor à vida
Convivendo diariamente com pessoas entre a vida e à morte, Zezinho disse que aprendeu a dar mais valor à vida. Ele comentou que se sente forte. Deus disse para o forte ajudar o fraco. E quando eu vejo essas pessoas sofrendo eu me sinto muito forte. Porque muitas delas já levei até o carro no colo, disse. E faço tudo com muito amor, acrescentou.
Ele já perdeu a conta das inúmeras amizades que fez no local. Entre elas, a de um grande amigo, vencido, há pouco tempo, pelo câncer. Chamava-se José Zeraldo Ramos. O paciente era de Altamira do Paraná. Por incrível que pareça do mesmo estado e cidade de Zezinho.
O motorista contou que momentos antes de Ramos morrer, visitou o amigo no quarto, fez uma oração e disse a ele para descansar em paz, que Deus estava a sua espera. Ele estava muito fraco. Nem respondia. Mas disse para ele assim: se o senhor ouviu o que eu falei aperte a minha mão. E ele, bem devagar, apertou. Eu me despedi emocionado fui para casa, recordou. O telefone de Zezinho tocou por volta das 21 horas. Era o pessoal da casa anunciando a morte de José Ramos.
Provações
Em sua vida, Zezinho já passou por muitos apertos. Desde muito menino foi provado. Ele tinha apenas 11 anos quando o irmão mais novo, de apenas três meses, estava com febre, entre a vida e a morte. A criança precisava de ajuda o mais rápido possível. Mas a mãe não sabia a quem recorrer. Na época, eles moravam na zona rural, em Minas Gerais, na cidade da Caaratinga. Ele recorda que levava a mãe de charrete até a cidade para socorrer o irmão e, em fração de segundos, desesperada, a mãe, vendo que o filho dava os últimos suspiros de vida saltou do carrinho no meio da pista obrigando um motorista a parar o carro.
Lembro que era um senhor de idade. Ele parou perguntando o que estava acontecendo. Minha mãe explicou a situação e ele então disse que era médico. Ele deu os primeiros socorros, levou minha mãe à farmácia para meu irmão tomar uma injeção e em seguida ao hospital. A mãe não tinha um tostão para pagá-lo. Recordo como se fosse hoje ele falando que não fez aquilo por ela, mas sim pelo meu irmão. Hoje ele [o irmão] está com 54 anos. Se não fosse esse médico ele estaria morto, lembrou. A partir daquele dia eu senti que alguma coisa já havia mudado em mim, acrescentou.
Zezinho esclareceu que jamais ajudou alguém esperando algo em troca ou até mesmo reconhecimento. Pretendo, enquanto viver, estar ajudando estas pessoas. A minha parte estou fazendo, frisou. Seu sonho é ver Campo Mourão ganhar uma nova casa de apoio ao doente do câncer.