O luthier Marcos Roberto Rosa, 35 anos, trabalha em um galpão localizado no bairro Lar Paraná. Rodeado de muitas madeiras, instrumentos musicais e máquinas grandes responsáveis por serrar, entalhar e tantas outras funções, seu trabalho começa a ganhar visão e cada vez mais clientes. Nos últimos meses peças fabricadas por Rosa foram enviadas para outros estados como São Paulo e Rondônia.
Luthier é a pessoa responsável por fazer e consertar instrumentos de corda, e desde cedo aprendeu a trabalhar com instrumentos musicais, sem fazer nenhum curso específico. A paixão pela música veio ainda cedo e aliado a ela, o gosto e curiosidade de mexer com madeira, levando o então menino a fabricar pequenas peças, como arcos e flechas. Posteriormente, veio o desejo de aprender violão e a busca por entender como aquele instrumento funcionava. Eu gosto do instrumento. Fui pegando gosto e já comecei a calcular, pensar em muitas coisas. Um dia eu estava lendo a revista de um amigo e tinha a fórmula. Achada a fórmula, fiquei pensando como aplicar essa fórmula. Comecei a fazer os instrumentos e acabou que deu certo, conta.
O aprendizado aconteceu na sua busca por entender como os instrumentos eram fabricados e como as escalas eram calculadas. Mesmo sem ter feito nenhum curso, Rosa também buscava aprender sobre os instrumentos através de conversas com pessoas que já possuíam uma experiência com a música. Mas não tinha ninguém que eu conhecesse que fabricasse. Comecei a mexer sozinho, a pesquisar a madeira, olhar como era feito, de que tipo de madeira era construído o instrumento, porque não é com qualquer madeira que dá para fazer, aponta.
O luthier comenta que na época em que estava começando a se dedicar a esse trabalho, passou a observar todas as marcas de violão existentes e percebeu que todas elas usavam o mesmo tipo de madeira para o braço, para o corpo e para a escala. Rosa então começou a realizar pesquisas, passando a ter um olhar mais atento e treinado, percebendo quais madeiras produziam um som melhor, tinham mais estabilidade e apresentavam menos problemas com o passar do tempo. E foi assim que eu aprendi’, ressalta.
De todo esse início, Rosa guarda muitas lembranças, entre elas o apoio da família que auxiliava com a compra de materiais, como captadores e tarraxas, ou pelo simples fato de dar base aos sonhos e a vontade de Rosa em fazer o que gostava. A lembrança mais forte é da primeira guitarra que meu pai me deu. Ele tinha um rádio velho e trocou com um amigo. Ela era torta e começamos a mexer com ela. Eu queria fazer um braço novo, foi daí que partiu a ideia e eu comecei a observar que não era tão difícil. Fiz um braço para ela e peguei gosto pelo trabalho, conta.
Ao aprender e entender como se faz um instrumento – com todas as medidas, escalas e cálculos necessários – em meados de 94 a primeira peça foi construída: era uma guitarra semi-acústica. Foi inclusive a primeira escala que eu cheguei a fazer. Ficava levantando teoria e criando modelos para poder funcionar. Às vezes funcionava, mas não eram versáteis como as que eu utilizo hoje. Então fiz um instrumento, apliquei a fórmula com um paquímetro, cortei tudo do jeito que dava. Nem cheguei a pintar esse instrumento. Eu não tenho mais essa guitarra, ela era enorme, lembra.
A escala se localiza no braço do instrumento e é responsável pela afinação, sendo fabricado normalmente com madeiras como Jacarandá da Bahia, entre outras. Para o braço eu uso o cedro e às vezes com longarina de outras madeiras mais duras. Às vezes, uso o carvalho brasileiro, o roxinho fica bonito e a qualidade do som fica próximo ao do mogno, detalha. A longarina é um filete usado no braço, para dar um detalhe bonito e também para tornar a peça mais resistente, evitando que quebre ou acabe entortando com o tempo.
Rosa explica que na construção de um instrumento várias madeiras são utilizadas, para tornar a peça perfeita. Cedro, Jacarandá, Ipê roxo, Ébano são exemplos de materiais que podem ser usados na fabricação, mas a madeira mais comum a ser utilizada é o cedro, por ser mais macia. Além disso, testes com outras madeiras são feitos, como por exemplo, a Grevílea usada para fazer caixas usadas na construção civil. É uma madeira parecida com o Carvalho Brasileiro, é toda desenhada, é linda. Como a gente está em escassez de materiais, estou pesquisando materiais alternativos que possam ser usados com qualidade e com beleza. O luthier não é só qualidade, tem que ter uma beleza também no instrumento, um capricho todo, diz.
Mas matérias-primas inusitadas sempre são um desafio e não são novidade para Rosa, tanto que ele mesmo vai atrás desses materiais. A minha guitarra, foi construída com uma estante velha. O pessoal jogou fora, meu pai trouxe as madeiras e eu construí ela. Ela é espetacular, eu a adoro, revela.
Além de construir, Rosa realiza muitas manutenções e consertos, sendo que por dia chegam de dois a três instrumentos para serem recuperados. Entre essas peças, muitas relíquias e xodós dos donos, exigindo sempre um cuidado maior. A gente lida com todos eles de uma forma especial, tenta cuidar ao máximo para não dar problema, diz.
Mesmo realizando tantos reparos, Rosa diz não realizar determinadas pinturas, principalmente em violões, por mais que os clientes queiram mudar a cor, pois essa troca pode trazer a perda da sonoridade do instrumento, e em casos de peças antigas o valor no mercado também cai. Algumas coisas a gente faz, mas não faz pintura em instrumentos, porque estraga o instrumento. Uma guitarra de marca antiga que esteja toda ralada, não compensa pintar porque ela tem um valor agregado maior do que se você deixar bonita, destaca.
Aos poucos o trabalho de Rosa fica cada vez mais conhecido. Exemplo disso, são as encomendas que recebe de outros estados como São Paulo e Ji- Paraná, em Rondônia. [ O cliente] viu os instrumentos e as fotos que coloquei em um site de relacionamentos, achou bacana e encomendou pela internet. Ele confiou no meu trabalho e a guitarra está na mão dele. Ele disse que gostou muito e eu fiquei feliz, diz.
Curioso e autoditada, Rosa, que sempre gostou de música, aprendeu também a tocar os instrumentos e o incentivo veio de uma história ainda na adolescência, quando queria impressionar uma garota. De acordo com o luthier, ela era muito inteligente e ele buscava fazer algo para ser diferente: Todo mundo gostava de estudar e eu sempre fui meio relaxado. Essa garota é inteligente e para compensar toda essa questão – de eu não ser muito estudioso – eu queria fazer algo diferente. E isso tudo, não só por ela. Eu transformei isso em um trabalho, conta.
Entre as suas referências musicais estão o rock, música brasileira, jazz e música clássica. A música para mim é tudo. É cor, espaço, é dimensão. Eu sou meio sinestésico, cada som, cada junção de nota representa um espaço diferente. Eu não consigo viver sem música, frisa.