13 de agosto macabro foi apagado em escola

Há dois anos, o temido 13 de agosto caiu em uma sexta-feira. Poderia ser um dia comum, como qualquer outro em Campo Mourão, mas coincidência ou não, essa data ficou marcada de forma macabra na cidade, mais precisamente no Colégio Estadual Vinicius de Moraes, no Conjunto Cohapar. As aulas que deveriam transcorrer normalmente naquele dia, foram interrompidas por homens da polícia, os quais chegaram no local para vasculhar a residência destinada ao zelador da escola e a fossa que ficava ao lado. No final da tarde, as suspeitas da polícia foram confirmadas: duas jovens, ex-estudantes do colégio, haviam sido mortas, esquartejadas, incineradas e lançadas na fossa.

O caseiro da escola, Raimundo Gregório da Silva, 58 anos, conhecido por Ivan, foi preso e confessou a autoria dos crimes. Ele morava sozinho e trabalhava no colégio há 18 anos. Também era encarregado pela distribuição do Programa do Leite das Crianças, tendo sido candidato a vereador em Campo Mourão. Era um homem acima de qualquer suspeita. As vítimas, Dimitria Laura Vieira Gênero, 16 anos, e Iara Pacheco de Oliveira, 20 anos, eram amigas dele e freqüentavam sua casa com freqüência. A primeira estava desaparecida desde 2009 e Iara havia saído de casa em janeiro de 2010 para nunca mais voltar.

Passados dois anos, o Colégio Vinicius de Moraes procurou apagar todas as marcas da tragédia. E conseguiu, segundo a nova diretoria Águida Aparecida Prado Berbet, 53 anos. A casa onde ele (o zelador) morava foi reformada e a fossa aterrada. Acabamos também com a horta (o criminoso teria espalhado cinzas das vítimas nas hortaliças) e um policial militar passou a morar na casa. No começo foi difícil, mas a escola fez um grande trabalho junto às famílias dos estudantes e aos poucos tudo foi sendo superado. Hoje, os pais estão até mais participativos. Quando programamos reuniões e entrega de boletins, mais de 90% dos pais comparece no dia marcado; antes a participação era de 30%, diz ela. Psicólogos foram chamados na escola para atender pais e crianças. O Núcleo de Educação deu muito apoio, com várias palestras, trazendo psicólogos, padres e professores para conversar com pais e alunos.

A escola também passou por melhorias, aumentando a segurança de funcionários e alunos. No mês de abril deste ano, a diretora conta que promoveu um encontro na escola com os pais para que eles pudessem expor as principais dificuldades dos filhos na escola. Mudamos a metodologia, temos uma nova equipe pedagógica e a meta é envolver mais os pais com a escola. Nesse encontro mostramos como eles poderiam ajudar no rendimento dos filhos. O resultado tem sido muito satisfatório, afirma.

Na parte estrutural, foi aberto mais um portão para a saída de carros, dando acesso a casa, hoje ocupada por um policial. Antes, havia apenas um portão estreito para passagem de pessoas. Abrimos também outra porta na parte da secretaria e vamos arrecadar recursos para reformar o muro, deixando visível para a parte interna da secretaria. De um modo geral a escola está muito boa e ninguém mais lembra daquele caso, já que as meninas nem eram mais estudantes do colégio, comenta.

Sobre o zelador, que ficou conhecido como Ivan, o terrível, ela diz que ninguém conseguia acreditar no que havia acontecido. Era uma pessoa muito boa, sempre prestativa e que não levantava qualquer tipo de suspeita. Um homem dedicado, que prestava serviços na escola e até na casa dos professores, quando precisava, revela. Ivan está preso e deverá ser levado a júri em breve pelos crimes de homicídio duplamente qualificados e consumados e também por crimes de ocultação de cadáveres.

Crime ‘quase perfeito’

A história do crime é digna dos filmes Sexta-Feira 13. Desaparecida, Dimitria ‘enviava’ mensagens de celular à família, dizendo que estava morando com o namorado em São Paulo e que retornaria em breve. Mas a comunicação era apenas por meio de mensagens escritas. Detalhe: o celular dela foi encontrado na casa do caseiro, o que indica que ele mesmo devia mandar as mensagens para tranqüilizar os familiares e não levantar suspeitas.

Roupas e outros objetos da jovem desaparecida também foram encontrados na casa dele. Ao ser preso, Ivan contou que as duas consumiam drogas. Dimitria teria sido morta enquanto dormia em sua casa. Ele a matou para evitar que ela fosse para São Paulo, onde pretendia viver com um namorado. Já Iara recebeu uma martelada na cabeça antes de ser esquartejada.

Casa assombrada

A casa, no pátio da escola, onde as duas jovens foram assassinadas e tiveram os corpos mutilados, hoje é ocupada pelo soldado Jorge Cristiano de Oliveira, do 11º Batalhão da Polícia Militar. Um policial casado e pai de um garoto pequeno. Ele passou a morar no imóvel, em fevereiro de 2011, e conta que no início as pessoas o viam com certo receio quando entrava na casa. No início, muitos me perguntavam se não tinha medo ou se não via nada dentro da casa. Hoje poucos me questionam, mas ainda tem pessoas assombradas, diz ele.

Até mesmo pessoas que costumam usar a quadra de esportes do colégio, nos finais de semana chegaram a se afastar. Aos poucos foram voltando, mas meio assustados. Com o passar do tempo, vendo que há movimentação de família na casa, as pessoas foram se acostumando. Enfim, o policial limpou os arredores da casa, recolhendo entulhos e dando novos ares ao ambiente.