Wilian é um jovem preso por assalto. Está na cadeia de Engenheiro Beltrão numa cela onde caberiam seis pessoas. Mas divide o espaço com outros 23. Sem ventilação, passa o dia sob um calor de 30 graus. Improvisou alguns ventiladores para amenizar o drama. O problema é que já foi julgado e condenado a seis anos de detenção. Ele não deveria mais estar ali e sim, ser removido a uma penitenciária. Enquanto permanece, torna-se mais uma pedra no caminho da Polícia Civil. É que, ao invés de passar o dia investigando crimes contra a população, policiais perdem seu tempo com a guarda dos detentos. Acabam se envolvendo com problemas íntimos, médicos e até amorosos dos aprisionados. A situação das delegacias da região de Campo Mourão, definitivamente, não vai nada bem.
A realidade é que, policiais que deveriam estar na rua investigando, ficam a mercê dos detentos. Se der investigamos, afirma o delegado chefe da delegacia de polícia de Engenheiro Beltrão, Reginaldo Caetano da Silva. Segundo ele, sua equipe passa a maior parte do tempo voltada aos aprisionados, restando à população o consolo e a paciência para poder desvendar determinados crimes. Segundo ele, 70% do tempo da polícia hoje é gasto com presos. Restam apenas 30% para cumprir o verdadeiro papel da investigação. Se não tivéssemos que custodiar os detentos, aqui em Engenheiro Beltrão já teríamos elucidado todos os delitos, explicou Silva.
Hoje, a delegacia de Engenheiro Beltrão conta com 68 detentos. Destes, 19 não deveriam mais estar ali. Eles foram condenados e tinham que estar em presídios maiores. São apenas seis celas para acomodar todo mundo. Pela lei, apenas 12 pessoas poderiam permanecer encarcerados no local. Mas não é o que ocorre. De acordo com o delegado, a cada seis metros quadrados deveria haver somente um presidiário. Cuidar dos presos fere a Constituição. Não temos esta missão. Hoje não se investiga como antigamente, diz o delegado. Em 2011, em Beltrão, houve apenas uma fuga. Este ano foram duas tentativas sem êxito.
A equipe da polícia não é grande. Além de Reginaldo somam-se quatro investigadores e mais dois profissionais cedidos pelo próprio município. Sem serem policiais, os dois trabalham como escrivães. À noite, sempre um membro da equipe colabora na vigilância dos detentos. Mesmo assim, segundo Reginaldo, trata-se de uma guarda deficitária. Mas se vale de consolo, ao fundo, três cães vira-latas ajudam na vigilância. É o que tem.
Pior ocorre em Barbosa Ferraz, onde um simples vigilante da prefeitura, desarmado, faz a guarda. Barbosa ainda registra um saldo negativo em fugas ao longo dos últimos dez anos. Numa delas, em 2004, um dos foragidos retornou às celas por livre e espontânea vontade. Na época ele disse que estava com fome. Atualmente o município conta com 18 presos, num local onde deveriam estar apenas oito. Além disso, oito deles também já estão condenados.
Um destacamento no parquinho
Em Luiziana, o prédio que acolhe os policiais militares nem ao estado pertence. Trata-se de uma edificação antiga, mantida pela própria prefeitura num local onde deveria conter um parquinho infantil. Sim, ao invés de existirem crianças brincando, conforme diz a placa ainda resistente ao tempo, encontra-se a sede da PM. O local se resume a tranqüilidade. Sem muitas ocorrências, até as duas celas foram desativadas. Lá não existem presos, nem policiais civis. Quem comete crimes na cidade é encaminhado para a delegacia de Campo Mourão, sede da comarca. Segundo o sargento Almir Quichaba, que já comandou o destacamento de Luiziana, a delegacia da cidade nunca recebeu presos. Trabalho a menos.
Araruna: reforma em andamento
Apesar dos presos de Araruna ficarem em Peabiru, a delegacia que ficou por mais de um ano fechada foi reaberta recentemente. As portas receberam novos batentes, o chão foi trocado e a pintura na parede deve ser feita em breve. A gente tenta investir nesse primeiro atendimento à população. Para resolver os problemas e não traumatizar ainda mais quem já está fragilizado.
Delegacia de Campo Mourão mantém histórico de superlotação
A cadeia de Campo Mourão tem como um dos maiores problemas a superlotação. Além disso, a falta de efetivo também é uma situação que dificulta o andamento das atividades. A situação está caótica, segundo afirmou o delegado chefe da 16ª Sub Divisão Policial José Aparecido Jacovós.
A cadeia de Campo Mourão tem capacidade para 70 pessoas. No entanto, somando os detentos do regime semi-aberto, são aproximadamente 220 presos. Destes, 50 já estão condenados. Tiraram 33, mas continua superlotado, explica o delegado. A situação compromete tanto as condições de quem está preso, quanto o trabalho dos policiais civis.
Quanto ao número baixo de efetivo, Jacovós explica que acaba tendo um comprometimento da investigação, porque policiais que deveriam estar na rua, estão fazendo trabalho de escolta de presos, tanto na civil quanto na militar. O fato de ter de colocar policiais para cuidar, transportar e escoltar presos, compromete a investigação.
Além disso, a carceragem tem uma estrutura precária. Os presos têm de ocupar as galerias e as celas não têm portas. Pela superlotação, não há espaço para todos. Segundo o advogado e presidente da Comissão dos Direitos Humanos, representada pela OAB de Campo Mourão, Andrey Legnani, a rede de esgoto na carceragem não é suficiente, ficando sua vazão comprometida. Além disso, os presos têm pouco volume de água nos encanamentos.