Citar e excitar, cortar (?) palavras

“É bom escrever porque reúne as duas alegrias:
falar sozinho e falar a uma multidão.”
Cesare Pavese

Depois do título, logo abaixo sempre tem uma citação, frase, provérbio, palavras de alguém que de alguma forma tem relação com o conteúdo principal, Artigo deste espaço nesta Tribuna. Assim foi, e provavelmente será, ainda que o até quando não se saiba.

Entre outros significados, citar é transcrever dizeres. É uma das características desta Coluna, prestes a completar 34 anos na próxima semana, 10 de julho. Ainda sobre o título, o de hoje, outra palavra é excitar, ela tem dois sentidos apropriados à Coluna: exaltar e provocar.

Títulos e transcrição de dizeres visam atrair o caro leitor. Se funciona, só quem lê, ou não, saberia responder. Tal tentativa poderá ter o efeito contrário, afastando o público leitor – não da Tribuna do Interior – mas da Coluna.

“Escrever é cortar palavras”, a colocação é atribuída a Carlos Drummond de Andrade, sem que exista um texto no qual ela faça parte. O autor é o crítico de arte John Ruskin, que assinalava, nos textos dele, a necessidade de cortar as palavras a mais e as mais difíceis.

Ao menos para o escrevinhador aqui, para “cortar palavras”, é preciso ter as palavras. Quem me dera ter muitas, tantas, uma enorme lista repletas de palavras e poder cortar aquelas que estariam em excesso, no número e significados.

Inicialmente a sensação é de satisfação ao concluir o texto, constatar que elas extrapolaram o número de linhas destinado para esta Coluna. Como se ela fosse uma árvore frondosa, cujos galhos são o conteúdo de palavras, que necessitam serem aparadas, podadas, para a clareza e coesão do texto.

Mas nem sempre um texto enxuto é garantia que ele é ótimo, bom ou regular, podendo ser até ruim.

As palavras são o grande desafio de quem escreve. Sempre é preferível possuir um razoável ou grande número de palavras, pois será mais fácil poder/ter que cortá-las?

O imenso e permanente desafio ao começar a escrever, depois de definido e delimitado o assunto, é ser original, e ser original é não ter copiado, imitado um conteúdo.

Para quem escreve, seja raro, ocasionalmente, constante ou cotidianamente, é preciso ter a disposição uma importante ferramenta que ajudará com todas as palavras em mãos, até para não utilizá-las inicialmente, que servirão para cortá-las.

Escrever é não deixar de lado, jamais, um bom dicionário. Se antigamente o grosso e pesado livro ficava ao lado da máquina de escrever, atualmente o dicionário está no computador, via internet, que leva milésimos de segundos para ter todos os significados, contextos que cada palavra tem.

Além do sinônimos, quem escreve sabe que pode conhecer ou se valer de um significado que até então não se lembrava, tinha pensado.

Então o texto já está pronto, após o que este escrevinhador atrevidamente se arvorou a condição de aconselhar quem produz ou fará um texto?

Não.

Leia o texto em voz alta. O som das palavras poderá nos dar outro sentido, não expressando adequadamente a mensagem como se pretende que ela seja compreendida. Caso não possa ler em voz alta, situação comum dos estudantes em dia de prova, mesmo assim faça uma leitura como se estivesse lendo, quando é possível ler em silêncio, ouvindo o som produzido pelas palavras, funciona.

Os 34 anos desta Coluna fez o raro caro leitor uma cobaia, pois cada texto não deixa de ser um teste. De mensagens originais, se escrever é cortar palavras, mas também escutar cada uma delas como tal e todas elas juntas, em harmonia. Este escrevinhador gosta de escutar o que diz o caro leitor.

Fases de Fazer Frases (I)
Para sempre escrever, é não parar de ler.

Fases de Fazer Frases (II)
Uma palavra bem antiga pode ter novos significados.

Fases de Fazer Frases (III)
Nem sempre quem fala, diz. Mas quem diz, fala.

Fases de Fazer Frases (IV)
Lavagem de dinheiro é mais do que palavra suja.

Fases de Fazer Frases (V)
Sólido. Só lido. Só lido com sólido.

Olhos, Vistos do Cotidiano
“Mulher é presa por ‘gato’ de energia elétrica” em Campo Mourão”, assina a reportagem o jornalista Walter Pereira, dia 26 passado, nesta Tribuna. A gíria gato tem a ver com a característica do felino, que se locomove furtivamente. E é sorrateiramente uma característica do criminoso que evita chamar a atenção.

Que ninguém se precipite em defender a causa animal, o gato em questão é gíria e gatuno é chamado o inimigo do alheio. A pena prevista é de um a quatro anos de reclusão para quem furta energia.

É velho o ditado, aqui incontáveis vezes publicado, novamente se aplica: “A esperteza quando é demais vira bicho e come o dono”.

Farpas e Ferpas (I)
Consciência nunca pesa em coração vazio.

Farpas e Ferpas (II)
Dominar o medo é não controlar a coragem.

Reminiscências em Preto e Branco
“O Brasil tem uma grande passado pela frente”, o dito bem cabe hoje na campanha eleitoral brasileira. A frase é do saudoso humorista e pensador Millôr Fernandes.

José Eugênio Maciel | [email protected]